Sinto que muitas vezes crio meus problemas. Invento, satirizo, ojerizo, me caracterizo e só concluo que o problema de verdade, é o excesso de pensar.
Sendo fruto da classe média quase proletária, onde os pais deixam como maior dote a educação dos filhos, sou o típico exemplo de uma geração que apareceu para ser orgulho e gozar das oportunidades que as raízes familiares não tiveram: desde os mais estúpidos concursos de desenhos de gibi as traumatizantes coleções de poesia da quarta série, sem falar na coleção de dezenas da bendita carteirinha escolar (sim, tudo se passou nas décadas de 80 e 90), fui, o que um amigo satirou de "a filha que todo pai queria ter..."
Segui todas as regras impostas, transgredi as que foram criadas exatamente para isso e inventei outras tantas que acreditava ter apareciam por designação "divina" do sistema... rs rs rs... tolo protótipo presunçoso da perfeição...
Hoje, revendo alguns dos autores que mais admiro, tiro de Clarisse a justificativa de sempre querer justificar ("Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.") e saúdo Machado por relevar uma das características mais instigantes e (porque não) desejadas de alma feminina... ah, este olhos de ressaca...
Por mais que já não tivesse julgado, ou tão somente destratado, hoje somente desejo para mim tal caracterização. Na esperança de acordar "Capitu", não pela suposta moral deflagrada, mas pela possibilidade dos atos ambíguos, desejos despertados, e a inconsequência de um olhar que não mensura tal tormenta que possa gerar; ... quero hoje ser desconhecida pelos meus atos, minhas regras, minhas crenças... quero simplesmente ser meu desejo, por mais sujo ou nobre possa parecer e assim ser a onda cava e profunda que ameaça avançar e tudo tragar e simplesmente esquecer o pensar.



