quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um sonho de fé

Foi um sonho de muitos aprendizados. Thais é uma menina guerreira, meiga e engraçada. Hoje tem 18 anos e já venceu muitas batalhas em sua vida. Já perdeu todo seu cabelo por 3 vezes, com as sessões de quimio e radio a que foi submetida, na luta pela vida contra a doença Astrocitoma, uma espécie de tumor intercraniano. Até hoje sofre todos os dias com dores de cabeça. Mas isto não tira seu bom humor, seu senso de achar a vida maravilhosa. Dificilmente reclama. Está sempre exaltando. Volta e meia solta um "eita, Glória!" que nós achávamos super engraçado.
Seu verdadeiro sonho era conhecer a cantora Gospel Cassiane, uma pastora da Igreja Assembléia de Deus e recordista na venda de CDs Gospel no Brasil. Belíssima voz.
A Thais é tão ansiosa que tivemos mesmo que fazer surpresa. Dissemos que sairíamos para almoçar juntas e assinar uns papeis da Make-A-Wish. Para este dia, foram sua mãe Lena e seu pai, Cícero. Embora sejam divorciados e já casados novamente com outras pessoas, vivem em perfeita comunhão, todos unidos até hoje. A Thais adora a madrasta e o padrasto. E achamos belo estarem pai e mãe juntos para presenciar o dia da realização da filha.
A Thais tem uma irmãzinha de 7 anos, a Thainá, que é igualmente abençoada. Ela diz que sempre se emociona quando vai à Igreja com a irmãzinha e a vê orando: "Deus, tira essa dor da cabeça da minha irmã. Ela já sofreu demais. Põe na minha!"  Na verdade, neste especial dia do sonho, nós voluntárias também fomos à Igreja com a Thais e nós também pedimos a Deus pela cura da nossa querida wish kid (e que esta dor não vá pra ninguém).
Tivemos um dia feliz: domingo de sol, pegamos a Thais com seus pais em sua casa e fomos para um almoço mais que especial noShopping Tamboré. A comida preferida dela? Massa. Então contamos com a parceria do melhor restaurante italiano de São Paulo em nossa opinião: La Pasta Gialla (http://www.lavecchiacucina.com.br/) que além de nos oferecer uma bela comida da Mama, nos atendeu com todo o carinho do mundo, embarcando com a gente no sonho, desde o nosso primeiro contato. A Valéria, responsável pela loja do Shopping Tamboré, é fã da Make-A-Wish e conhece a nossa causa desde a época que trabalhou na Disney. Acolheu a Thais com muito carinho e demos boas risadas juntas, como no momento que a Thais acreditou mesmo que o "protetor de camisa" era um babador e que ela tinha que usar porque era criança.
Papeamos, tiramos muitas fotos (a Thais adora posar para fotos, para minha sorte que adoro tirar fotos), ela nos mostrou seu caderno impecável onde estavam escritas lindas letras de música Gospel que ela mesma compõe, um desenho lindo de tulipas que ela mesma fez, uma artista. E o CD da Cassiane. Foi quando nos contou a estória de vida da Cassiane, que tanto a inspira: a cantora, quando bebê, chegou a ter seu atestado de óbito emitido, mas se curou e sai com vida daquele Hospital. E segundo a Thais, sua tia profetizou a vontade de Deus: "Ela viverá e onde ela não puder chegar, sua voz chegará." E assim é. O Brasil todo conhece Cassiane, entre os protestantes. A Thais é uma fã de verdade da cantora. Sabe TODAS as músicas.
Saímos do restaurante e começou a surpresa. A Thais não entendeu nada quando chegamos na Igreja ADAlpha, em Alphavillle, que é a Igreja que a Cassiane tem em São Paulo. Estávamos lá para acompanhar a Thais no culto, para orarmos por sua felicidade. E ela estava super feliz de nos ter na Igreja, principalmente a mãe e o pai, que não mais frequentam como ela. Quem vai com ela até hoje é a avó materna. E volta e meia ela dizia: "Será que ela vem?" E nós falávamos que não sabíamos.
Demos uma Bíblia muito linda pra Thais. Personalizada. Mandamos colocar seu nome na capa. Presente de nossos amigos evangélicos que embarcaram neste sonho também.
Mas o fato é que estava tudo marcado. E para a Thais foi perfeito: ela se emocionou muitas vezes no culto, orou por sua cura, cantou muito e quando a Cassiane subiu no palco, foi uma choradeira só! Super tiete!
A Thais é uma filha muito querida de Deus. Ela diz que adora o site da Make-A-Wish e sempre entra para anotar o nome das crianças que tiveram seus sonhos realizados, que como ela precisam de cura e então ela coloca os nomes nos livros de oração da Igreja. Merecia mesmo ter um dia mais que especial, com seu sonho realizado.
Ao fim do culto teve atendimento VIP. Foi para atrás do palco e pode abraçar, tirar fotos, entregar um presente para a Cassiane (o desenho das tulipas) e chorar muito, muito mesmo, de emoção.
Para nós, foi uma experiência enriquecedora.
Eu disse pra ela, em uma de nossas conversas: "Não dá pra acreditar que você já superou isso tudo, tão novinha que é." E ela prontamente respondeu: "É QUE EU NASCI PARA VENCER."
Nós não temos dúvida disto.


Parceiros: Restaurante La Pasta Gialla (http://www.lavecchiacucina.com.br/)

Voluntárias: Ana Gomes, Claudia Gomes e Rosi Gomes.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

O dia que pensei melhor e vi que estava errada

Ontem fiz um post reclamando da manifestação dos sem-teto que deu uma travada básica no trânsito de São Paulo.
Na verdade fiz aquela crítica clichê de um monte de gente que acha que já foi pobre mas que na verdade não tem a menor idéia do que é pobreza de verdade. Aquele discurso  "trabalhar que é bom ninguém quer."
Mas pensei bem e hoje estou com vergonha de ter pensado assim.
Estava chateada por estar parada há horas dentro do meu carro quase zero com ar condicionado e nervosa por não poder chegar ao meu emprego. Tem noção do quão egoísta é isso?
Esta ficha me caiu pois todos os dias eu passo e vejo uma cena como a da foto abaixo:


Sabem o que é isso?
Uma mulher sem teto. Que mora debaixo da ponte do Morumbi. O mesmo Morumbi da ostentação.
Só que hoje eu passei por isto, com minhas portas travadas, meu vidro fechado e meu ar ligado, e me senti uma merda. Porque eu sempre rezo pra que Deus dê condições mais dignas pra pessoas como ela. Mas quando eles se unem para uma manifestação e "mexem no meu queijo", me tiram quarenta minutos da minha rotina perfeita, eu fico brava. E os julgo. Pra que rezar?
Qual a probabilidade de uma pessoa nestas condições conseguir dar a volta por cima sem a ajuda do Governo? Se esta mulher que mora bem aí, embaixo desta ponte, batesse na porta da sua casa e dissesse: "Quero trabalhar. Quero lavar seu banheiro. Pode me pagar no mês o que você paga num tênis pro seu filho", você abriria a porta da sua casa e daria a ela uma chance? Certamente não. 
Aí vão me dizer: "Ah, mas os caras que vão na manifestação são de outro tipo. Eles ganham a casa e vendem." Eu não cometerei de novo este tipo de erro. Eu precisaria conhecer a fundo a vidas daquelas mil pessoas para poder chegar a uma conclusão precipitada destas.
Sei que existem pessoas acomodadas, que não buscam mudar de vida, ao contrário de verdadeiros campeões que deram A VOLTA por cima. Mas sinceramente eu me pergunto: "se eu estivesse na situação deles, se eu tivesse  as mesmas condições, as mesmas experiências que eles, talvez fosse pior. Uma criminosa provavelmente." Porque o meio é responsável também pelo que se tornam as pessoas. E talvez se eles tivessem nascido na família que eu nasci, se tivessem frequentado as escolas que estudei, se tivessem tido as minhas oportunidades, fossem ganhadores de Prêmios Nobel. E eu sou uma bosta. Este é o ponto.
Eu não nasci sem teto. Sou filha e irmã de trabalhadores que nunca me deixaram faltar as condições básicas para um ser humano ser feliz: saúde, educação (ainda que em escolas públicas), moradia (ainda que em casa de aluguel), alimentação (ainda que só tivesse danone no dia da compra), segurança e sobretudo amor. Muito amor. 
Estas pessoas são, certamente, muito mais que sem-teto.
São pessoas tentando gritar para serem notadas. Mas é como se estivessem em "mute" em meio às classes em ascensão.
E quem sou eu pra julgar? 
Que o Governo possa usar de forma decente todo o imposto que eu pago para tentar melhorar esta desigualdade do nosso País. Nunca soneguei. Nem um centavo. Nunca fiz esquema nenhum pra restituir mais. Enquanto me acham uma otária, eu me sinto de consciência tranquila. Se o Governo corrompe meu dinheiro, o carma é deles, um erro não justifica o outro. 
Que eu seja capaz de votar em pessoas mais humanas que mudem de opinião. E que não achem justa tamanha diferença. Que minimamente enxerguem cenas absurdas como esta de pessoas morando embaixo da ponte. Enxergar já é um começo. Refletir vem depois. Tem gente que não tem e nem nunca terá a menor idéia do que eu estou falando.
Me arrependi.
Sem teto: parem SP!
Exijam a ajuda que o Governo tem a obrigação de dar para que recuperem sua dignidade e busquem como eu, desde que em condições semelhantes. Capitalismo sim. Selvagem, não.
"Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..."
Que eu nunca fique cega. Amém. 


domingo, 4 de maio de 2014

Vitória

Victoria é seu nome. Vitória é a palavra da sua vida. Aos oito meses a mãe percebeu que algo estava errado com a pequena. Diagnosticado como verme mas que infelizmente depois de uma semana, com exames mais precisos, foi visto que não se tratava de algo tão simples. Era câncer nos rins. E antes mesmo de completar um aninho de idade a luta pela vida começou: foram anos de quimioterapia. Aos dois anos Vitória era uma bebê linda, carequinha, ainda na luta pela vida. A mãe, Cleide (eu insisto em minha tese de que toda mãe tem um quê de santa), nunca deixou de trabalhar, para garantir que poderia dar o melhor aos filhos. Coração enorme, acolheu Gisele, Ivete e Robson, filhos do primeiro casamento de Ailton, como se fossem seus filhos. "Esperei que eles crescessem pois queria criá-los direitinho. Tinha medo de ter um filho meu e amar mais que eu já amava eles." Pode imaginar do quão altruísta é um ser humano que pensa assim? E depois de 7 anos veio ela: Victoria. Para o chamego dos irmãos mais velhos que sempre ajudaram a cuidar. Nas sessões de quimio no Graac, eram os irmãos que a levavam. Há oito anos Cleide é telefonista da Livraria Cultura no Shopping Market Place. E graças à união da linda família, pôde seguir trabalhando. Mesmo com a doença da filha. Depois de anos de quimio, apareceu um tumor maligno no rim esquerdo de Vic, que aos 3 anos de idade se submeteu a uma cirurgia onde retirou metade do rim esquerdo. Todo este tratamento trouxe uma fragilidade maior em seu pulmão. A pequena já teve pneumonia 18 vezes. Fica hoje na escolinha da Prefeitura de manhã, e infalivelmente o tio da perua a pega todos os dias ao meio dia e a leva para a Recreação durante toda a tarde, onde faz Ballet, Aulas de Religião e outras coisas que a fazem tão esperta. Às 18:30h a perua deixa a pequena em casa, onde a mãe já está esperando com a jantinha quente. Sua comidinha preferida? Carne moída com arroz, tomate e alface. Pra doce não liga. Só gosta de chocolate branco e SÒ se for Galak. Mais nenhum outro. Gosta de assistir desenhos animados e seu preferido é o DORA, A AVENTUREIRA. Quando chegamos no Grajau, bairro onde mora, fomos bem recebidas pela vizinhança e pelos pais da Vic: Cleide e Ailton. Carinhosos, criaram os 4 filhos na doutrina da Igreja. O que nos faz entender a fé e a força para lutar contra toda a doença da Victória. A Victoria estava na casa da amiguinha. O pai foi buscar. Nos contaram que quando tocou o interfone e era a amiga chamando para brincar, ela disse "Ah... pensei que era meu sonho". rsrs. Como se sonho ligasse para a casa das pessoas. 
Há 2 anos a assistente social do Graac, que coincidentemente também se chama Dora, a convidou a escrever uma carta para a Make-A-Wish pedindo seu sonho. A mãe achou que, com 3 anos criança nem sonhava. "Acho que eu não perguntava com medo de que ela pedisse algo que eu nunca fosse capaz de dar". Mas a Dora conseguiu arrancar dela o sonho que foi inscrito e que nós, como fadas, temos certeza de que é o verdadeiro sonho da pequena: um quarto decorado da DORA, A AVENTUREIRA. 
A irmã mais velha, recém-separada do marido, voltou para a casa dos pais e acabou "tomando" o quarto da Victoria de volta. Então a caminha pequenina da Vic foi pro quarto dos pais. "E agora, Vic? Como fica?" 
"Decora só este cantinho com a DORA, A AVENTUREIRA", apontando pra parede onde a caminha fica encostada no quarto dos pais. 
"Mas como é o quarto que você tanto sonha?"
"Ah.. - pensou com ar de quem sonha- tem a cama com a Dora. a parede com a Dora, a TV com a Dora..." 
Pausa. As fadas anotando. 
"Ah! Esqueci! A mesa de vidro da Dora!"?
"Que? Mesa de vidro da Dora? Como é isso?"
"Pra colocar aqui na sala. Meu pai que pediu."
O pai levantou da sala. Envergonhado. (Risos). 
Abraçamos a pequena e explicamos que toooodo mundo terá direito um dia à uma fada ou a um gênio da lâmpada. Mas que nós éramos a fada só dela. Então que era pra ela pedir o sonho só dela. Depois viriam outras fadas pro papai. E pra mamãe. Ela entendeu. E repetiu: "Meu quarto da Dora. Minha irmã dorme na sala porque ela ronca". (Risos).
A irmã está temporariamente na casa. Vão alugar um outro apartamento no Grajau para morar com os 2 filhos e o marido, com quem reatou neste mês. Estavam esperando desocupar o apartamento. E então o quartinho voltará a ser da Victoria. Aproveitamos para pegar todas as medidas. A Vic prontamente apareceu com uma trena e tratou de subir na cama para segurar para a gente medir as paredes, janela, etc. 
A casa é muito simples. Mas muito espaçosa. É um condomínio habitacional popular. Vai ficar lindo! Mal podemos imaginar. 
O aniversário dela será agora dia 17 de Maio. A mãe já programou a folga para levá-la num bate e volta à Praia. A única vez que a pequena foi à Praia foi quando os médicos a desenganaram e disseram para a mãe fazer as suas últimas vontades. Foram com aparelhos e ambulância para a praia, mas mal puderam aproveitar. Hoje, graças a Deus já em manutenção, vai ao Graac e Hospital São Paulo a cada 4 meses rumo a ter alta em definitivo e dar esta estória como vencida de uma vez por todas. Ela tirou o cateter para ir à praia desta vez mais feliz e saudável. Vai ser um dia incrível e a Vic não vê a hora. Outra vontade da Vic na época era ter um cachorro. A gerente da Cleide deu então um poodle,  que hoje cresceu, é cego e um "grude" com a menina. A mãe disse que sabe que ela está doente quando o cachorro muda o comportamento e não sai um segundo do lado dela. E o pai reclama que agora ela sarou e o cachorro vai viver mais 12 anos. Ele não parece gostar muito.
A Victoria é linda! Toda de cor de rosa, com tiara de flor nos cabelos cacheados, linda de viver! Espoleta que só ela. Faladeira. Tem sempre na mão um brinquedo que toca as "músicas mágicas de Dora, A Aventureira. Mas que perdeu o CD. Depois descobrimos que os pais que esconderam o CD porque ela não parava de ouvir. 
Sabe o nome de todos os personagens. Explicou tudo pra gente. 
Foi uma experiência única ter ido ao famoso Grajau, que o Criolo carinhosamente chama de Grajauex. Nos humaniza ver realidades tão diferentes. Eu diria que é difícil, para crianças como a Vic, como nós, fadas que hoje não temos do que reclamar, mas que já fomos muito mais simples e necessitadas na infância, não ter um sonho que seja TER. As pessoas têm tanta coisa! Fiquei lembrando do quanto eu sempre sonhei em ter um quarto só para mim. Mas que dividi a vida toda com meus irmãos. Hoje, sei o quão abençoada fui por ter neles tanto amor e proteção, mas quando a gente é criança, a gente RELAMENTE sonha em TER algumas coisas. E a Victoria sonha em ter este quarto todo decorado da Dora. Com TV, guarda-roupas, cama, cortina, tapete, tudo que se tem direito.
E estamos com nossas varinhas prontas para seguirmos na luta das captações necessárias para fazer um dia inesquecível e uma experiência transformadora para a pequena Vic!
Pra terminar, um trechinho da música do Criolo, conterrâneo da pequena, falando coisas que gostaríamos de dizer a ela:

"Entre o céu e o inferno,
no Grajaú me localizo,
...
Eu tô falando é de atenção,
que dá cola ao coração,
que faz marmanjo chorar
se faltar
um simples sorriso
ou às vezes um olhar
...
Não quero ver
você triste assim não
que a minha música possa
te levar amor."

#Make-A-Wish