O Domingo é de sol.
Pé na estrada.
Nosso encontro com o motorista da van foi logo às 8h da manhã. Nada menos que o próprio Papai Noel. A cereja do bolo do nosso sonho. Sr. Alécio é um Papai Noel de verdade, com barba branca e cabelo comprido branco, original. Neste final de ano vai trabalhar lá no Shopping West Plaza. A esta altura feliz, pois, apesar de ter um marido Vovó Mafalfa, eu nunca tinha tido um amigo Papai Noel. Porém, desesperada. Make a Wish não pode nunca ser confundida com ONG "Papai Noel", nada contra, mas nossa missão não é dar um presente que a criança quer, mas sim dar à criança uma experiência transformadora, realizando seu sonho que é único e assim, fazendo-a acreditar que tudo é possível, inclusive sua cura. Mas com jeitinho explicamos a nossa missão ao Sr. Alécio Spanhiol que entendeu que não poderia colocar sua fantasia de Papai Noel.
Para a locação da van, para a longa viagem de mais de oito horas no total (ida e volta), tivemos a doação tanto do próprio Sr. Alecio, que nos cobrou preço de custo quando entendeu a razão de nossa viagem ("Não se pode ganhar sempre, disse durante as negociações, já encantado com a estória do Daniel, abrindo mão de seus honorários) e também doação dos grandes amigos da época de Porto Seguro, Murilo Ferrari e Renata Villarroel, que desta vez sonharam com a gente, financiando o transporte e o Microsoft Office, que compramos para que o Daniel pudesse exercitar tudo que aprende nas aulas de Informática da escola.
O sonho do Daniel era ganhar um Notebook Preto. A doação do notebook veio da empresa OTG (http://www.otg.com.br/), com quem trabalhamos muitos anos enquanto clientes e onde fizemos grandes e verdadeiros amigos também, como é o caso do grande Pedro Diniz, que acreditou em nossa causa e nos ajudou com o sonhado presente.
Para proteger o notebook, novinho, novinho, o amigo Elvis Machado doou uma capa preta. Pra combinar com o note na cor preferida do Daniel.
Além disto, como gostaríamos de um momento de celebração, com a família toda reunida, os 4 irmãos mais a mãe Ana, atentamo-nos que comida italiana era a cozinha preferida do Dani e conseguimos parceria com o Restaurante Spaguetto, na beira da Praia Grande em Ubatuba (http://www.ubatuba.com.br/pousadinha/restaurante.htm). Excelente pedida! Comida deliciosa, preço bacana e proprietários engajados socialmente. Sr. Alfonso e família cederam as refeições, bebidas e sobremesas para toda família do Daniel e mais especial que isto, nos atenderam de uma forma totalmente especial, VIP, com muito carinho mesmo!
Por fim, como uma das tristezas que o Daniel nos relatou foi que não sabia ler ainda (pois ficou alguns anos afastado da escola por conta do tratamento médico) e que ninguém nunca leu uma estória pra ele, tratamos de escrever pra ele um livro, que minha sobrinha e cunhada ilustraram, Gabriela e Adriana Tonhi, respectivamente, e que o Vitor Dalla Rosa, grande amigo Web Design fez a capa com todo carinho. Não parou por aí: a amiga Carol Lima, que trabalha na Alphagraphics, nos doou a confecção do livro. O livro que conta nada menos que a estória de vida do pequeno Daniel. O nome? "A estoria de uma estrela" e a moral da estória? Devemos sempre acreditar em nossos sonhos.
Estávamos nervosas. Realizar sonhos dá sempre aquele frio na barriga da gente. Medo se vai dar tudo certo, se vai sair tudo conforme a gente planejou. Depois de mais de 3 horas viajando, faltando menos de 1 hora pra chegarmos, a Rosi decidiu dar uma ligada pra mãe do Daniel, a Ana, pra dizer que estávamos chegando. E a Ana simplesmente nos surpreendeu dizendo que não iria mais não. Ha! Medo. Perguntamos o porquê, explicamos que era importante pois realizaríamos o sonho do pequeno Daniel e que planejamos com carinho o almoço no restaurante, e que sem ela não poderíamos sair com as 4 crianças menores de idade. Rebolamos e a convencemos a deixar suas visitas esperando enquanto fôssemos ao compromisso que tínhamos combinado com ela há mais de 15 dias. Vida de voluntário é assim: tem sempre emoção. Mas tem uma frase do Johann Goethe que diz que "Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o Universo conspira a seu favor." E a esta altura, não era apenas a força do sonho do Daniel que atraia toda boa energia pra que desse tudo certo, já tinha em jogo também toda a nossa energia para realizar este sonho, de nós da Make a Wish, do Sr. Alécio, do pessoal do restaurante, dos nossos amigos, da equipe da OTG, muita gente desejando junto um final feliz...
E foi assim que, de repente, num piscar de olhos lá estávamos nós 9: Daniel com toda sua família, Ana, Claudia e Rosi como voluntárias e o Sr. Alecio. Fizemos nosso pedido, já com fome, e enquanto aguardávamos que chegassem os pratos, a Rosi começou a contar uma estória pra ele. Na segunda página, a mãe do Dani já comecou a chorar de emoção, ao perceber que se tratava da estória de vida de seu filho. A irmãzinha de 4 anos começou também a associar algumas coisas parecidas ("Olha! Nós também moramos nesta praia do Félix!" Ou "O Daniel também torce pro Corinthians!"). O Daniel, por conta de seu déficit de atenção, não suportaria ali quietinho se a estória fosse muito longa, mas como eram por volta de 16 páginas, acabou dando tudo certo.
A última página dizia que naquele dia, um de seus sonhos se tornou realidade e que Daniel aprendeu que nunca deveria parar de sonhar. E neste momento a Clau chegou com o presente nas mãos, entregando-o para o Daniel que disse um "Eu não acredito, tia!..." delicioso de se ouvir! Abriu vários sorrisos enquanto impacientemente abria a caixa do notebook. O Daniel não é muito de demonstrar seus sentimentos. Por vezes, costuma até ser agressivo, segundo os relatos da mãe. Mas neste domingo foi diferente. Foi um doce. Perguntou se ganhamos o almoço e dissemos que sim. Então ele teveo cuidado de se levantar, entrar no restaurante e abraçar todas as meninas que nos serviram. Pra nós, estas demonstrações de carinho foram vitória...
E foi nítida a grande diferença entre a primeira foto da família reunida, porém "distante" e a última foto da familia: todos juntos e realmente "unidos". Porque se o sofrimento por vezes fez os irmãos se distanciarem, pelo tempo que a mãe teve que viver exclusivamente para os cuidados do Daniel morando com ele em um hospital, enquanto a avó e os pais das criancas se viravam com eles, pudemos ver que a felicidade é capaz de uni-los novamente.
Ao abrir a caixa, lá estava o notebook todo personalizado para o Daniel. Tela de fundo do Corinthians, Office e anti-virus instalados, o livro de sua vida que fizemos em PDF na área de trabalho, pra ele ver quantas vezes quisesse. Temos certeza que em breve ele estará lendo nosso pdf sozinho!
Bastaram alguns minutos para que, mesmo sem saber ler ele já memorizasse como digitar sua senha e conseguisse com as meninas do restaurante a senha do Wi-Fi. Ali mesmo já iniciou o download de seus jogos preferidos, com a consultoria do irmão mais velho.
Era enfim, seu sonho realizado.
Festejou que o dia seguinte seria feriado, aniversário de Ubatuba e que por conta disto não teria que ir à escola e poderia mexer o dia inteiro com seu notebook!
O Daniel e todos seus irmãos disseram também, por várias vezes, que estavam felizes já que NUNCA tinham visto um Papai Noel de verdade antes!
Foi um dia muito especial.
O Daniel nos prometeu não deixar de ir à Igreja e fazer todas as lições. Saímos de lá com um trato: se o notebook atrapalhar suas tarefas e responsabilidades, que a mãe Ana vai nos ligar pra pegarmos o notebook de volta. E então ele prometeu que isto nunca vai acontecer já que será um bom menino.
Hoje foi um dia que nunca esqueceremos. O dia em que três fadas e um Papai Noel transformaram a vida de mais um menino! Menino que já lutou como gente grande nesta vida, mas que na hora de sonhar é tao simples como qualquer crianca.
Quando chegamos em São Paulo, no bairro de Perdizes, ao ir para o meu carro percebi que eu havia sido roubada. Quebraram um dos vidros do meu carro e levaram alguns de meus pertences pessoais bem como o step. Por algum tempo ficamos tristes. Eu, particularmente, até chorei. Como pode ser tão diferente? Algumas pessoas saírem de casa para fazer o bem, enquanto outras saem para fazer o mal?!? Mas depois, pensando melhor, lembrei do sorriso do Daniel, de toda sua luta, de toda sua estória e imediatamente voltei a me sentir feliz por, graças a Deus, sermos do grupo das pessoas que saem para fazer o bem. Afinal, se Céu e Inferno nada mais são que estados de consciência, realizar mais este sonho foi para nós uma viagem às estrelas!