Tenho ouvido muito, ultimamente, a pergunta
"onde estão os petistas?" ou "o que se passa na cabeça de uma
pessoa ´instruída´ que votou na Dilma?" e decidi escrever um pouco
sobre, mesmo ODIANDO falar de política (imaginem que prefiro ficar em silêncio nestas
discussões e definitivamente isto não é do meu feitio). Além de odiar política,
eu sempre me achei alguém "despolitizada", ou seja, não gasto mesmo
meu precioso tempo de vida envolvida nessa bagaça, nunca fui líder de grêmio
estudantil e recentemente escolhi seguir uma carreira mais técnica que
estratégica em Projetos na empresa onde trabalho porque não sei fazer política
muito bem, nunca soube. Nunca soube e não quero aprender a fazer poker face
quando estou no meio do alto escalão de qualquer lugar simplesmente por ser
"política" e não poder esboçar qualquer indignação, descontentamento
ou negação. Isto poderia me fazer mais rica, financeirente falando, mas me
adoeceria, eu bem me conheço. Porém, com tanta merda que ando ouvindo ultimamente
de queridos e desconhecidos que enchem seu coração de ódio iludidos por achar
que o problema está só num partido, criados em seus carpetes a leite com pêra,
como diria Hermes e Renato, me dei conta de que não, não sou eu a
despolitizada. E que mesmo fugindo de política, minha vida acabou sempre me
mostrando algumas coisas que não me recusei a enxergar e, quem sabe, escrevendo
um pouco disto, eu possa explicar um outro ponto de vista, longe da expectativa
de convencer alguém de mudar de idéia, mas cheia de esperança de que haja um
respeito maior pela opinião alheia.
Eu cresci numa família simples, bem simples, que à base de muito suór e luta se posicionou na classe média da sociedade. Lembro que criança pedia dinheiro pra comprar "gelinho" (geladinho, chupe-chupe, sacolé) e meu pai não tinha. Um dia ele se cansou de me dizer não e me deu, sem que minha mãe visse, e foi a pé trabalhar naquele dia, uma distância de mais ou menos 10km. Minha mãe me explicou o que "eu tinha causado" e eu entendi, e nunca mais pedi. Esse troço custa menos de R$1,00 e quando descobri, aos 13, o valor do dinheiro, me dei conta do quanto era pouco o que meu pai não tinha pra dar, e assim como meus irmãos mais velhos, comecei a trabalhar bem cedo. Bem mesmo. Contrariando a vontade de minha mãe, que só queria que eu estudasse. Mas ganhei seu voto de confiança continuando a tirar "A" em quase tudo na Escola Pública que sempre estudei, mesmo tendo começado a trabalhar meio período aos 13. Fui mini empregada doméstica, babá, responsável por almoxariado, estagiária técnica, técnica em telecom de campo, de treinamento, analista de telecom, engenheira de infra, gerente de produtos, gerente de projetos e PMO. Tudo isso pra dizer que nunca recebi Bolsa Família para chegar onde cheguei e nem por isso não concordo com o Programa de Assistência que todo governo tem que ter. Também nasci “sem-terra”, “sem-teto”, ou como queiram chamar e somente aos meus 19 anos, no ano de 2000, meus pais e meus irmãos puderam sair do aluguel e adquiriram a primeira casa própria. Era época do FHC ainda, me lembro. Eu, no auge de minha juventude, acabando meu curso técnico na melhor Escola de São Paulo, a Federal, depois de anos e anos de greve. Umas aulas nas férias aqui e outras acolá para repôr a matemática não aprendida, mas os professores e alunos (modéstia parte) eram tão acima da média que tenho certeza ter saído de lá com uma base muito melhor que qualquer filhinho de papai que tenha feito um Bandeirantes na vida. Eu, a duras penas. Aqueles quatro anos foram meus anos de passar as noites em claro em cima dos livros, por ter trabalhado em todos os anos de técnico que fiz e por ter vindo de uma escola estadual que não me dava tanta folga para estar nos bares com amigos pós aulas de Eletricidade. Sempre venci pelo esforço e pouco por talento. Mas venci. Mas o que mais contou nos anos áureos da Federal não foram as boas aulas de física e matemática, nem o primeiro contato que tive aos 15 com a língua inglesa que mal tinha tido no primário (o Governo estabeleceu na época que “escolas padrões” como a minha teriam menos aulas de língua estrangeira e mais de exatas). O que realmente contou foram as personalidades que foram nossos Mestres, nossos Professores durante aqueles quatro anos. Cresci no meio de gente de esquerda, que pregava que o PT seria a solução dos problemas do País. Seria o partido que governaria pelas minorias. Foi assim no meu ensino básico e se intensificou no Colegial, na Federal. Uma das poucas vezes que menti para minha mãe que estava na escola mas não estava, dei azar: apareci ao vivo no “Aqui Agora”, um Telejornal sensacionalista da época (tipo Datena de hoje em dia) que mostrava as manifestações no vão do MASP contra o fim das Escolas Técnicas que o Excelentíssimo Fernando Henrique instituiu, e lá estava eu, no ombro do namorado, gritando contra. Fui a penúltima leva do curso técnico no formato que sempre funcionou e era considerado o melhor do Brasil. Poderia ter agradecido a sorte de ser a “saideira” e ficado jogando Mega Drive no conforto do meu lar, mas tinha a ilusão, na época, de que manifestação do povo poderia mudar algo na história. Hoje não acredito nisto mais. O FHC acabou com as Federais. Com o discurso de que era trampolim para as melhores Universidades (e de fato era). Mas ao invés de arrumar o Ensino Fundamental, os Colegiais não Técnicos, para que quem quisesse ser médico não precisasse ir pra uma Federal, não. Ele não arrumou o que estava errado. Ele cagou o que estava certo. E as Federais viraram “Senais”. E os estagiários técnicos nunca mais foram os mesmos. Valeu o aprendizado. Cresci muito próxima de professores, profissão que mais admiro no mundo. Queria ser professora, mas eles não deixaram. Foi uma professora de História que fez minha inscrição na Federal e convenceu a mim e meus pais de que eu tinha que fazer um curso técnico para ser alguém na vida. Foram minhas professoras de português e matemática da escola estadual que me deram exercícios e aulas extras nas férias para que eu prestasse o tal Vestibulinho. Estas pessoas mudaram minha vida, traçaram meu rumo pois meus pais, em sua simplicidade, quase analfabetos, não poderiam fazê-lo sem esta ajuda. Quando ainda criança, fui levada por minhas professoras da época na Assembléia Legislativa de São Paulo em uma das maiores greves da minha escola. Lembro que era o Quércia que governava. Depois teve um lance com o Maluf, na época que ele dizia que “professora não ganhava mal, era mal casada” e mandou a cavalaria descer o reio nos professores que insistiam em invadir a ALESP. Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer. Vi professores apanhando que nem bandido. Depois os vi presos lá dentro. E fiz parte de corrente de gente que passava copos de água e comida pra quem estava preso lá dentro. Eu não entendia muita coisa na época, mas entendi que, definitivamente, professor não era respeitado no Brasil. Cresci com uma família de dois professores com seus dois filhos tentando ganhar honestamente a vida. O Willian, Mestre em Física e Matemática, entregava pizzas aos sábados a noite para completar a renda da família. Esperávamos ansiosamente ele chegar com a pizza depois da uma da manhã naqueles sábados felizes. Pra gente, uma festa. Pra ele, com certeza, nem tanto. Ainda muito jovem, graças ao bendito curso técnico, conseguindo bom emprego em multinacionais, eu já ganhava melhor que todos estes professores que eram meus ídolos. E sabia que não estava certo. Entendi que estou num País que não investe em educação e entendi o porquê: é muito mais fácil continuar no topo da pirâmide com pessoas mal instruídas e facilmente manipuladas e enganadas embaixo. E isso não tem só a ver com aprender História e Geografia. Tem a ver com aprender com a vida. Assistir ao Jornal Nacional e ser capaz de discernir o que é real e o que é manipulação da Globo. É não assistir mais ao Jornal Nacional. E isso, é raro. Muitos queridos com seus diplomas são as pessoas mais tapadas que já vi.
Eu cresci numa família simples, bem simples, que à base de muito suór e luta se posicionou na classe média da sociedade. Lembro que criança pedia dinheiro pra comprar "gelinho" (geladinho, chupe-chupe, sacolé) e meu pai não tinha. Um dia ele se cansou de me dizer não e me deu, sem que minha mãe visse, e foi a pé trabalhar naquele dia, uma distância de mais ou menos 10km. Minha mãe me explicou o que "eu tinha causado" e eu entendi, e nunca mais pedi. Esse troço custa menos de R$1,00 e quando descobri, aos 13, o valor do dinheiro, me dei conta do quanto era pouco o que meu pai não tinha pra dar, e assim como meus irmãos mais velhos, comecei a trabalhar bem cedo. Bem mesmo. Contrariando a vontade de minha mãe, que só queria que eu estudasse. Mas ganhei seu voto de confiança continuando a tirar "A" em quase tudo na Escola Pública que sempre estudei, mesmo tendo começado a trabalhar meio período aos 13. Fui mini empregada doméstica, babá, responsável por almoxariado, estagiária técnica, técnica em telecom de campo, de treinamento, analista de telecom, engenheira de infra, gerente de produtos, gerente de projetos e PMO. Tudo isso pra dizer que nunca recebi Bolsa Família para chegar onde cheguei e nem por isso não concordo com o Programa de Assistência que todo governo tem que ter. Também nasci “sem-terra”, “sem-teto”, ou como queiram chamar e somente aos meus 19 anos, no ano de 2000, meus pais e meus irmãos puderam sair do aluguel e adquiriram a primeira casa própria. Era época do FHC ainda, me lembro. Eu, no auge de minha juventude, acabando meu curso técnico na melhor Escola de São Paulo, a Federal, depois de anos e anos de greve. Umas aulas nas férias aqui e outras acolá para repôr a matemática não aprendida, mas os professores e alunos (modéstia parte) eram tão acima da média que tenho certeza ter saído de lá com uma base muito melhor que qualquer filhinho de papai que tenha feito um Bandeirantes na vida. Eu, a duras penas. Aqueles quatro anos foram meus anos de passar as noites em claro em cima dos livros, por ter trabalhado em todos os anos de técnico que fiz e por ter vindo de uma escola estadual que não me dava tanta folga para estar nos bares com amigos pós aulas de Eletricidade. Sempre venci pelo esforço e pouco por talento. Mas venci. Mas o que mais contou nos anos áureos da Federal não foram as boas aulas de física e matemática, nem o primeiro contato que tive aos 15 com a língua inglesa que mal tinha tido no primário (o Governo estabeleceu na época que “escolas padrões” como a minha teriam menos aulas de língua estrangeira e mais de exatas). O que realmente contou foram as personalidades que foram nossos Mestres, nossos Professores durante aqueles quatro anos. Cresci no meio de gente de esquerda, que pregava que o PT seria a solução dos problemas do País. Seria o partido que governaria pelas minorias. Foi assim no meu ensino básico e se intensificou no Colegial, na Federal. Uma das poucas vezes que menti para minha mãe que estava na escola mas não estava, dei azar: apareci ao vivo no “Aqui Agora”, um Telejornal sensacionalista da época (tipo Datena de hoje em dia) que mostrava as manifestações no vão do MASP contra o fim das Escolas Técnicas que o Excelentíssimo Fernando Henrique instituiu, e lá estava eu, no ombro do namorado, gritando contra. Fui a penúltima leva do curso técnico no formato que sempre funcionou e era considerado o melhor do Brasil. Poderia ter agradecido a sorte de ser a “saideira” e ficado jogando Mega Drive no conforto do meu lar, mas tinha a ilusão, na época, de que manifestação do povo poderia mudar algo na história. Hoje não acredito nisto mais. O FHC acabou com as Federais. Com o discurso de que era trampolim para as melhores Universidades (e de fato era). Mas ao invés de arrumar o Ensino Fundamental, os Colegiais não Técnicos, para que quem quisesse ser médico não precisasse ir pra uma Federal, não. Ele não arrumou o que estava errado. Ele cagou o que estava certo. E as Federais viraram “Senais”. E os estagiários técnicos nunca mais foram os mesmos. Valeu o aprendizado. Cresci muito próxima de professores, profissão que mais admiro no mundo. Queria ser professora, mas eles não deixaram. Foi uma professora de História que fez minha inscrição na Federal e convenceu a mim e meus pais de que eu tinha que fazer um curso técnico para ser alguém na vida. Foram minhas professoras de português e matemática da escola estadual que me deram exercícios e aulas extras nas férias para que eu prestasse o tal Vestibulinho. Estas pessoas mudaram minha vida, traçaram meu rumo pois meus pais, em sua simplicidade, quase analfabetos, não poderiam fazê-lo sem esta ajuda. Quando ainda criança, fui levada por minhas professoras da época na Assembléia Legislativa de São Paulo em uma das maiores greves da minha escola. Lembro que era o Quércia que governava. Depois teve um lance com o Maluf, na época que ele dizia que “professora não ganhava mal, era mal casada” e mandou a cavalaria descer o reio nos professores que insistiam em invadir a ALESP. Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer. Vi professores apanhando que nem bandido. Depois os vi presos lá dentro. E fiz parte de corrente de gente que passava copos de água e comida pra quem estava preso lá dentro. Eu não entendia muita coisa na época, mas entendi que, definitivamente, professor não era respeitado no Brasil. Cresci com uma família de dois professores com seus dois filhos tentando ganhar honestamente a vida. O Willian, Mestre em Física e Matemática, entregava pizzas aos sábados a noite para completar a renda da família. Esperávamos ansiosamente ele chegar com a pizza depois da uma da manhã naqueles sábados felizes. Pra gente, uma festa. Pra ele, com certeza, nem tanto. Ainda muito jovem, graças ao bendito curso técnico, conseguindo bom emprego em multinacionais, eu já ganhava melhor que todos estes professores que eram meus ídolos. E sabia que não estava certo. Entendi que estou num País que não investe em educação e entendi o porquê: é muito mais fácil continuar no topo da pirâmide com pessoas mal instruídas e facilmente manipuladas e enganadas embaixo. E isso não tem só a ver com aprender História e Geografia. Tem a ver com aprender com a vida. Assistir ao Jornal Nacional e ser capaz de discernir o que é real e o que é manipulação da Globo. É não assistir mais ao Jornal Nacional. E isso, é raro. Muitos queridos com seus diplomas são as pessoas mais tapadas que já vi.
Na Federal, aprendi com grandes mestres a curva
de saturação do diodo e que enquanto pagarmos no tênis de nosso filho o mesmo
valor do salário de nossa empregada, o filho da empregada poderá roubar e até
matar seu filho por um par de tênis. Essa é a lei da vida. E passei olhar a desigualdade
social não apenas com solidariedade, sensível que sempre fui, mas com muito
medo. Até as pessoas mais egoístas deveriam pensar num Governo que governasse
para os mais pobres por uma questão de segurança pública. Quando se está com
uma arma na cabeça, meu amigo, não importa o carro nem o bairro que você está,
é sua vida em jogo. Vale a pena ter ascendido da Classe Média se não se pode ir
à esquina sem uma SUV blindada? Eu, definitivamente acho que não vale.
Tive um professor, Carlos MC Dowell, não esqueço,
que me chamava a atenção por ser ateu. Ele dizia que “acreditar em Deus era uma
ofensa à sua inteligência” e aquilo me intrigava, pois ele era mesmo uma das
pessoas mais inteligentes que eu já havia conhecido. Ao invés de repudiá-lo e
gritar “Aleluia, irmão”, me aproximei. Curiosa em como pensava aquele ser
humano tão incrível e que simplesmente não acreditava em Deus, que pra mim não
fazia o menor sentido, sempre fui de crer. Anos próximos um dia ele me convidou
para ir com ele numa Instituição que ele mesmo tinha fundado. Eu tirava boas
notas de eletrônica e sempre fui de fazer campanhas de Páscoa e Natal com
amigos para levar alegria para Orfanatos e Asilos e isso lhe chamou a atenção.
Ele era um ídolo pra mim. Doutor em física, explicava bem o que ninguém
conseguia explicar. Sabe como é: ídolo de nerd normalmente é professor. Aceitei
a proposta. Nos encontramos depois das 18h no estacionamento da Federal onde
eu, jovem sonhadora e ambiciosa, que acreditava que estar ali na Federal era o
primeiro passo para conseguir meu carro importado, esperava ver naquele professor
a imagem do futuro promissor que eu perseguia. Veio ele, com uma belina muito
velha, com cheiro ruim, parecia ter pego enchente e sem o banco da frente.
Entrei passada naquele carro, não por ser “Maria Gasolina”, mas por ver
desmoronar parte de tudo que eu idealizava sobre meu próprio futuro. Fomos
juntos pro Centro da Cidade, onde chegamos num prédio velho e xexelento que
funcionava a ONG que ele sustentava, com seu próprio tempo e dinheiro,
praticamente sozinho. De tempos em tempos, tentava arrastar um aluno mais
riponga para fazer parte de seu time, como estava querendo fazer comigo naquela
noite. Na ONG, vários moradores de rua aprendendo a fazer, a construir seus
próprios rádios e outros equipamentos eletrônicos. Pessoas sujas, mal
cheirosas, soldando e abraçando aquele cara como se fosse um pai. Ele ensinava
eletrônica aos mendigos. E lhes dava dignidade. E lhes dava um passatempo. E
lhes dava brilho no olhar. Naquela noite eu me emocionei e vi que o único ateu
que até então tinha passado em minha vida, era o cara que mais seguia as Leis
Divinas. Percebi que tem coisas mais importantes na vida que acreditar em Deus.
Coisas que a gente faz, efetivamente, com certeza contam mais pra Deus. E sei
que Carlos MC Dowell, mesmo ateu, tem mais pontos com Deus que eu, que ia na
missa todo domingo, e que recusei aquele trabalho em troca de um na NEC,
multinacional que me pagaria simplesmente seis vezes mais. Ali eu me rendi ao
Capitalismo e fui em busca do tal futuro promissor com casa confortável, carro
do ano, viagens de férias e bons restaurantes. Ele não. Ele era bem mais
evoluído que eu.
Minhas maiores referências da vida, por serem
pessoas honestas, do bem e que buscavam vencer, como meu irmão Altemir, meu tio
Airton, minha segunda mãe Sandra, meu padrinho Willian, o próprio Carlos Mc
Dowell, eram petistas. Desses que tinham adesivo de estrela no carro. Portanto,
eu não poderia pensar diferente tamanha a influência. Em 2003, quando Lula entrou
no poder, eu chorei vendo-o na TV. Eu juro que pensei que seria o fim da
miséria no Brasil. Eu continuava sonhando com meu futuro promissor, mas não sem
sonhar junto que todos tivessem oportunidades de galgar pelo mesmo.
Minha vida seguiu adiante sempre com contato com
a vida real, coisa que MUITA gente que eu conheço nunca teve. As ONGs a que
pertenci sempre me levaram pro meio das favelas. As obras civis que toquei,
enquanto Engenheira, sempre me deixaram ao lado dos pedreiros que passavam, às
vezes, mais de seis horas por dia nos trajetos casa-trabalho para ganharem o
que eu via que minha empresa lhes pagava (uma miséria) e eu pensava que, com
certeza, naquelas condições, eu não sei se não me revoltaria, não me marginalizaria.
Era muita humilhação pra uma gente muito sofrida. Eu não aguentava ver. O cara
que tinha idade pra ser meu pai, passando seis horas em condições sub-humanas
para chegar ao trabalho (só quem passou uma vida inteira sem carro sabe do que
estou falando e eu nem sei de tudo, pois nunca morei em bairro de extrema
periferia e aos 24, comprei meu primeiro carro) e depois de chegar no trabalho,
12 horas de muito trabalho duro, que lhe exigia muito fisicamente, pra vir um “Chefe
de Obras” com seu chapeuzinho branco gritando e humilhando o caboclo para
produzir mais? Eu via aquilo e não podia crer. E sabia que aquela era a
realidade da grande massa. Um pingo de idiotas no poder, dando chicotada no
povo sem voz e sem vez. Eu esquentava a marmita desses caras, uma a uma, no microondas
da presidência, não queria nem saber, nos dias que o marmiteiro não estava
funcionando. Porque aprendi que gente é gente. Toda gente merece respeito. E
continuava a sonhar que meu herói, até então na época, Sr. Pesidente Lula,
colocasse sua “capa imaginária” e acabasse com aquilo que eu via todo dia. Eu
quis morar sozinha. Morei a 300 passos (da minha cama à minha baia) do trabalho.
Qualidade de vida. Mas era na Cracolândia. Eu via aqueles drogados, jogados,
pra lá e pra cá, pulava mendigos pra chegar na portaria do meu prédio novinho e
pensava, “Meu presidente vai dar um jeito nisso tudo”. Era uma época de
esperança.
Fui fazer Engenharia na FEI, em São Bernardo. Pra
quem não sabe, significa Faculdade de Engenharia Industrial. Industrial porque
forma gente que trabalha, que vai pro mercado, que vai pra Industria e por
isso, de muita relevância pro País. Enquanto a FEI formava em média 300 alunos
por semestre, o ITA formava, em média 18 por ano. E eu nunca trabalhei com
alguém do ITA. O foco é outro: os caras saem do País, são estudiosos,
cientistas, a nata. A Fei, eleita a melhor segunda faculdade de engenharia do
País das particulares, forma gente real, dessas que estão por toda parte no
mercado de trabalho. Lá, em meio ao ABC, terra do Lula e dos sindicatos fortes,
com certeza a influência não foi diferente. Toda minha base política foi de
esquerda.
Deixei pra votar aos 18. Aos 16, quando era
facultativo, não me animei. Política nunca foi meu forte.
O tempo passou e não foi exatamente como pensei.
Mas as coisas melhoraram. Pra todo mundo. Lembro que quando a Marta Suplicy foi
prefeita, ela encarou de frente a Máfia das empresas de ônibus e se fez refém
de uma greve longínqua, lutando para que as empresas investissem mais em novos
ônibus, novas linhas, enfim, reduzindo seus lucros. Foi uma briga ferrenha, a
greve era um mal necessário. Pra quem tinha carro, na época, e via tudo na TV
do jeito que mostravam, não perceberam as mudanças. Ficaram com o “relaxa e
goza” em suas mentes, como única marca da Petista no Poder, e nunca puderam
sentir na pele o que eu senti: mais ônibus em melhores condições. A duras penas
ela fez pequenas melhorias. Não venceu a guerra, mas partezinha da batalha. Eu
pegava ônibus com banco quebrado antes. E passei a subir nos novos veículos.
Mas quem anda de carro não via nada daquilo. Quando converso com taxistas mais
velhos, eles me contam que ser pobre hoje é muito melhor que ser pobre
antigamente. Hoje pobre consegue comer carne de segunda todo dia, o que não
acontecia há duas décadas atrás. Muita gente saiu MESMO da linha da miséria
nesse país enquanto o PT governava. Minha mãe continua morando em bairro
simples, Lauzane Paulista, e quando vamos ao Mercado imenso que tem por lá, e o
vemos lotado de gente simples com seus carrinhos cheios, vejo que as coisas
realmente mudaram. Eu tenho amigos ainda muito simples, mas que graças a Deus
podem ter um pouco mais de dignidade indo ao trabalho, apesar do trânsito, com
seus carrinhos quase quitados. Não se vê tantos carros velhos na rua, como
quando eu era criança, aquelas coisas caindo aos pedaços. Na Itália, conheci a
Jaque, uma assistente social que audita o bom uso do Bolsa Família: bem cedo
está nas favelas, pra ver se as crianças foram pra escola, para pesar os bebês
e verem se estão ganhando o peso que deveriam, e quando as coisas não
acontecem, o benefício é cortado. Agora, falar que muito “vagabundo” recebe o
Bolsa Família e não deveria, aí é problema do Brasileiro e só gerações e
gerações sendo bem educadas poderão acabar com o bom e velho “jeitinho
brasileiro” de querer levar vantagem em tudo! Mas aí não vale só falar da
senhora que antes era rendeira a agora passa a tarde na rede deitada em Recife
porque recebe o bolsa família! Não vale! Se é pra falar de vagabundo, vamos
falar de todos nós: do amigo que simulou pagar aluguel com recibos do tio para
processar a Construtora e pedir ressarcimento de valores nunca pagos, do amigo
que deu golpe no seguro do celular que o filho adolescente perdeu na praia mais
que fez Boletim de Ocorrência como se fosse assalto para receber um Iphone
novo, do amigo que não avisa quando o restaurante esqueceu de marcar algum item
em sua comanda só pra pagar menos já que aquele lugar é caro mesmo, do amigo
que dá um dinheirinho extra pro garçom lhe servir umas boas doses de whisky a
noite toda sem colocar na conta do bar, do amigo que paga um dinheiro extra pro
peixeiro do Supermercado para colocar um peso menor de camarão perto da
sexta-feira santa, do amigo que faz notinha falsa de gastos e pede reembolso
pra empresa, do amigo que paga alguém lá no DETRAN para livrar sua habilitação
que estourou em pontos, do amigo que não se conforma com a repetência do filho
na escola e faz passar no Conselho, do amigo que compra o aparelhinho da
NetGato e tem sinal de TV a cabo em casa sem pagar um tostão por mês às
Operadoras, pro amigo que inventa coisa na declaração anual do imposto de
renda, e eu poderia passar o dia escrevendo “vagabundices” que, tenho a ligeira
impressão, são tão nojentas quanto o cara que ganha o “Auxílio Pesca” do
Governo sem nunca ter pescado.
Portanto, quando eu vejo esse monte de gente
reclamando, de barriga cheia, revoltados com o preço do Dólar porque perigam
cancelar sua viagem pra Disney desse ano, eu sinceramente sinto uma preguiça
enorme e uma sensação de que “não sabem de nada, inocentes.”
É revoltante essa história de Lava Jato. É.
Também me embrulha o estômago. E como eu sonho que pela primeira vez no Brasil
tenhamos punição, pra quem quer que seja, Lula, Dilma, Serra, o fdp que for! A
esta altura, vivo a fase mais sem heróis de toda minha vida! Foi um golpe em
meu coração ver um vídeo do Lula destratando um estudante de periferia num dia
de inauguração de uma quadra chinfrim no bairro que ele morava. Ele não é mais
gente. Ele se corrompeu, é fato. E pra mim, ele é pior que todos os outros, que
nasceram em berço de ouro e não têm a menor idéia do que é a vida de um pobre.
O Lula não. O Lula veio de pau de arara pra São Paulo porque não tinha o que
comer na caatinga onde morava. O Lula não poderia nunca ter se esquecido de
tudo que viveu e viu as pessoas viverem. É, de fato, imperdoável. Eu cresci no
País da impunidade. Desde criança Maluf rouba o povo, faz viaduto com preço de
quatro, cinco, rouba até nos frangos das crianças da escola e nunca vi o Maluf
se ferrar. Ouço um monte de imbecil falando “que ele rouba mas faz” e nunca vi
multidão na Paulista indignada com uma postura dessas (ps>esses malufistas,
obviamente, não pensam isso quando a abrangência é sua casa, só quando é no seu
País: veja se eles contratam uma diarista que rouba mais faz?! Não. Não
contratam). O que quero dizer é que o Brasil é o País da Impunidade desde que me
conheço por gente. Pra mim, não será novidade nenhuma se essa Operação toda não
der em absolutamente em nada. Não que eu queira, que eu me conforme, que eu
ache que devemos desistir, mas na boa, sem a parte do discurso que diz que o
problema é o PT.
O Problema não é o PT. São todos os partidos. É o
Brasileiro! E realmente chegou a hora de mudar isso tudo. Mas como? Eu não sei
a resposta.
Mas a resposta que eu queria dar é: dada toda
minha vivência, toda minha gratidão pela vida que hoje levo (apesar de ter
MUITO a melhorar, obviamente) e dada a minha IDEOLOGIA de que um País deve ser
governado para a maioria, e a maioria do Brasil ainda é pobre, é por isto que
eu jamais votaria no Aécio. Isto está muito longe de ser simpatizante da Dilma,
de defender o PT de hoje em dia. Eu não tenho quem defender. Mas de uma vez por
todas entendam, que enquanto vocês acreditam que quem vota no PT é cego, na
verdade não é isso. É só um jeito diferente de pensar, de olhar, talvez menos
egoísta, mais altruísta. Eu não votei no PT no primeiro turno. Votei na esquerda. No segundo turno, propositalmente me abstive, pois saberia que a Dilma ganharia. Não valia a gasolina ir pra São Paulo votar, tamanho desgosto pelos candidatos. Mas o que quero dizer, é que sou, intrinsicamente, de candidatos que lutarão pelos mais pobres e isto não é ser imbecil.
Outro dia uma patricinha com sua SUV me fechou no
trânsito, inconformada em eu não dar a ela vez para entrar na minha frente
(mimada, queria entrar a qualquer custo e entrou) sendo que ela tinha cortado
um caminho pela direita da Raposo como se fosse pro Shopping mas não foi (eu
vi), só pra passar na frente de dois ou três carros. Eu deixei. Não ia bater o
carro por bobeira. No vidro de trás o retrato de sua geração: dois adesivos. Um
dizia “Medicina USP” e o outro, “Não foi minha culpa. Eu votei no Aécio.”
Pensei comigo: Tá explicado. É muita ingenuidade achar que o problema é só o
PT. É mais ingenuidade ainda achar que o Aécio salvaria a Pátria. Esta é minha
opinião. E essa patricinha é o retrato dessa geração que se reúne na Paulista
sem nem saber porque está pedindo ou contestando. Como rebeldes sem causa...
“Meus heróis morreram de overdose... Os meus
inimigos, estão no poder...
Ideologia, eu quero uma pra viver!”


