terça-feira, 24 de março de 2015

Porque o PT?


Tenho ouvido muito, ultimamente, a pergunta "onde estão os petistas?" ou "o que se passa na cabeça de uma pessoa ´instruída´ que votou na Dilma?" e  decidi escrever um pouco sobre, mesmo ODIANDO falar de política (imaginem que prefiro ficar em silêncio nestas discussões e definitivamente isto não é do meu feitio). Além de odiar política, eu sempre me achei alguém "despolitizada", ou seja, não gasto mesmo meu precioso tempo de vida envolvida nessa bagaça, nunca fui líder de grêmio estudantil e recentemente escolhi seguir uma carreira mais técnica que estratégica em Projetos na empresa onde trabalho porque não sei fazer política muito bem, nunca soube. Nunca soube e não quero aprender a fazer poker face quando estou no meio do alto escalão de qualquer lugar simplesmente por ser "política" e não poder esboçar qualquer indignação, descontentamento ou negação. Isto poderia me fazer mais rica, financeirente falando, mas me adoeceria, eu bem me conheço. Porém, com tanta merda que ando ouvindo ultimamente de queridos e desconhecidos que enchem seu coração de ódio iludidos por achar que o problema está só num partido, criados em seus carpetes a leite com pêra, como diria Hermes e Renato, me dei conta de que não, não sou eu a despolitizada. E que mesmo fugindo de política, minha vida acabou sempre me mostrando algumas coisas que não me recusei a enxergar e, quem sabe, escrevendo um pouco disto, eu possa explicar um outro ponto de vista, longe da expectativa de convencer alguém de mudar de idéia, mas cheia de esperança de que haja um respeito maior pela opinião alheia.
Eu cresci numa família simples, bem simples, que à base de muito suór e luta se posicionou na classe média da sociedade. Lembro que criança pedia dinheiro pra comprar "gelinho" (geladinho, chupe-chupe, sacolé) e meu pai não tinha. Um dia ele se cansou de me dizer não e me deu, sem que minha mãe visse, e foi a pé trabalhar naquele dia, uma distância de mais ou menos 10km. Minha mãe me explicou o que "eu tinha causado" e eu entendi, e nunca mais pedi. Esse troço custa menos de R$1,00 e quando descobri, aos 13, o valor do dinheiro, me dei conta do quanto era pouco o que meu pai não tinha pra dar, e assim como meus irmãos mais velhos, comecei a trabalhar bem cedo. Bem mesmo. Contrariando a vontade de minha mãe, que só queria que eu estudasse. Mas ganhei seu voto de confiança continuando a tirar "A" em quase tudo na Escola Pública que sempre estudei, mesmo tendo começado a trabalhar meio período aos 13. Fui mini empregada doméstica, babá, responsável por almoxariado, estagiária técnica, técnica em telecom de campo, de treinamento, analista de telecom, engenheira de infra, gerente de produtos, gerente de projetos e PMO. Tudo isso pra dizer que nunca recebi Bolsa Família para chegar onde cheguei e nem por isso não concordo com o Programa de Assistência que todo governo tem que ter. Também nasci “sem-terra”, “sem-teto”, ou como queiram chamar e somente aos meus 19 anos, no ano de 2000, meus pais e meus irmãos puderam sair do aluguel e adquiriram a primeira casa própria. Era época do FHC ainda, me lembro. Eu, no auge de minha juventude, acabando meu curso técnico na melhor Escola de São Paulo, a Federal, depois de anos e anos de greve. Umas aulas nas férias aqui e outras acolá para repôr a matemática não aprendida, mas os professores e alunos (modéstia parte) eram tão acima da média que tenho certeza ter saído de lá com uma base muito melhor que qualquer filhinho de papai que tenha feito um Bandeirantes na vida. Eu, a duras penas. Aqueles quatro anos foram meus anos de passar as noites em claro em cima dos livros, por ter trabalhado em todos os anos de técnico que fiz e por ter vindo de uma escola estadual que não me dava tanta folga para estar nos bares com amigos pós aulas de Eletricidade. Sempre venci pelo esforço e pouco por talento. Mas venci. Mas o que mais contou nos anos áureos da Federal não foram as boas aulas de física e matemática, nem o primeiro contato que tive aos 15 com a língua inglesa que mal tinha tido no primário (o Governo estabeleceu na época que “escolas padrões” como a minha teriam menos aulas de língua estrangeira e mais de exatas). O que realmente contou foram as personalidades que foram nossos Mestres, nossos Professores durante aqueles quatro anos. Cresci no meio de gente de esquerda, que pregava que o PT seria a solução dos problemas do País. Seria o partido que governaria pelas minorias. Foi assim no meu ensino básico e se intensificou no Colegial, na Federal. Uma das poucas vezes que menti para minha mãe que estava na escola mas não estava, dei azar: apareci ao vivo no “Aqui Agora”, um Telejornal sensacionalista da época (tipo Datena de hoje em dia) que mostrava as manifestações no vão do MASP contra o fim das Escolas Técnicas que o Excelentíssimo Fernando Henrique instituiu, e lá estava eu, no ombro do namorado, gritando contra. Fui a penúltima leva do curso técnico no formato que sempre funcionou e era considerado o melhor do Brasil. Poderia ter agradecido a sorte de ser a “saideira” e ficado jogando Mega Drive no conforto do meu lar, mas tinha a ilusão, na época, de que manifestação do povo poderia mudar algo na história. Hoje não acredito nisto mais. O FHC acabou com as Federais. Com o discurso de que era trampolim para as melhores Universidades (e de fato era). Mas ao invés de arrumar o Ensino Fundamental, os Colegiais não Técnicos, para que quem quisesse ser médico não precisasse ir pra uma Federal, não. Ele não arrumou o que estava errado. Ele cagou o que estava certo. E as Federais viraram “Senais”. E os estagiários técnicos nunca mais foram os mesmos. Valeu o aprendizado. Cresci muito próxima de professores, profissão que mais admiro no mundo. Queria ser professora, mas eles não deixaram. Foi uma professora de História que fez minha inscrição na Federal e convenceu a mim e meus pais de que eu tinha que fazer um curso técnico para ser alguém na vida. Foram minhas professoras de português e matemática da escola estadual que me deram exercícios e aulas extras nas férias para que eu prestasse o tal Vestibulinho. Estas pessoas mudaram minha vida, traçaram meu rumo pois meus pais, em sua simplicidade, quase analfabetos, não poderiam fazê-lo sem esta ajuda. Quando ainda criança, fui levada por minhas professoras da época na Assembléia Legislativa de São Paulo em uma das maiores greves da minha escola. Lembro que era o Quércia que governava. Depois teve um lance com o Maluf, na época que ele dizia que “professora não ganhava mal, era mal casada” e mandou a cavalaria descer o reio nos professores que insistiam em invadir a ALESP. Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer. Vi professores apanhando que nem bandido. Depois os vi presos lá dentro. E fiz parte de corrente de gente que passava copos de água e comida pra quem estava preso lá dentro. Eu não entendia muita coisa na época, mas entendi que, definitivamente, professor não era respeitado no Brasil. Cresci com uma família de dois professores com seus dois filhos tentando ganhar honestamente a vida. O Willian, Mestre em Física e Matemática, entregava pizzas aos sábados a noite para completar a renda da família. Esperávamos ansiosamente ele chegar com a pizza depois da uma da manhã naqueles sábados felizes. Pra gente, uma festa. Pra ele, com certeza, nem tanto. Ainda muito jovem, graças ao bendito curso técnico, conseguindo bom emprego em multinacionais, eu já ganhava melhor que todos estes professores que eram meus ídolos. E sabia que não estava certo. Entendi que estou num País que não investe em educação e entendi o porquê: é muito mais fácil continuar no topo da pirâmide com pessoas mal instruídas e facilmente manipuladas e enganadas embaixo. E isso não tem só a ver com aprender História e Geografia. Tem a ver com aprender com a vida. Assistir ao Jornal Nacional e ser capaz de discernir o que é real e o que é manipulação da Globo. É não assistir mais ao Jornal Nacional. E isso, é raro. Muitos queridos com seus diplomas são as pessoas mais tapadas que já vi.

Na Federal, aprendi com grandes mestres a curva de saturação do diodo e que enquanto pagarmos no tênis de nosso filho o mesmo valor do salário de nossa empregada, o filho da empregada poderá roubar e até matar seu filho por um par de tênis. Essa é a lei da vida. E passei olhar a desigualdade social não apenas com solidariedade, sensível que sempre fui, mas com muito medo. Até as pessoas mais egoístas deveriam pensar num Governo que governasse para os mais pobres por uma questão de segurança pública. Quando se está com uma arma na cabeça, meu amigo, não importa o carro nem o bairro que você está, é sua vida em jogo. Vale a pena ter ascendido da Classe Média se não se pode ir à esquina sem uma SUV blindada? Eu, definitivamente acho que não vale.

Tive um professor, Carlos MC Dowell, não esqueço, que me chamava a atenção por ser ateu. Ele dizia que “acreditar em Deus era uma ofensa à sua inteligência” e aquilo me intrigava, pois ele era mesmo uma das pessoas mais inteligentes que eu já havia conhecido. Ao invés de repudiá-lo e gritar “Aleluia, irmão”, me aproximei. Curiosa em como pensava aquele ser humano tão incrível e que simplesmente não acreditava em Deus, que pra mim não fazia o menor sentido, sempre fui de crer. Anos próximos um dia ele me convidou para ir com ele numa Instituição que ele mesmo tinha fundado. Eu tirava boas notas de eletrônica e sempre fui de fazer campanhas de Páscoa e Natal com amigos para levar alegria para Orfanatos e Asilos e isso lhe chamou a atenção. Ele era um ídolo pra mim. Doutor em física, explicava bem o que ninguém conseguia explicar. Sabe como é: ídolo de nerd normalmente é professor. Aceitei a proposta. Nos encontramos depois das 18h no estacionamento da Federal onde eu, jovem sonhadora e ambiciosa, que acreditava que estar ali na Federal era o primeiro passo para conseguir meu carro importado, esperava ver naquele professor a imagem do futuro promissor que eu perseguia. Veio ele, com uma belina muito velha, com cheiro ruim, parecia ter pego enchente e sem o banco da frente. Entrei passada naquele carro, não por ser “Maria Gasolina”, mas por ver desmoronar parte de tudo que eu idealizava sobre meu próprio futuro. Fomos juntos pro Centro da Cidade, onde chegamos num prédio velho e xexelento que funcionava a ONG que ele sustentava, com seu próprio tempo e dinheiro, praticamente sozinho. De tempos em tempos, tentava arrastar um aluno mais riponga para fazer parte de seu time, como estava querendo fazer comigo naquela noite. Na ONG, vários moradores de rua aprendendo a fazer, a construir seus próprios rádios e outros equipamentos eletrônicos. Pessoas sujas, mal cheirosas, soldando e abraçando aquele cara como se fosse um pai. Ele ensinava eletrônica aos mendigos. E lhes dava dignidade. E lhes dava um passatempo. E lhes dava brilho no olhar. Naquela noite eu me emocionei e vi que o único ateu que até então tinha passado em minha vida, era o cara que mais seguia as Leis Divinas. Percebi que tem coisas mais importantes na vida que acreditar em Deus. Coisas que a gente faz, efetivamente, com certeza contam mais pra Deus. E sei que Carlos MC Dowell, mesmo ateu, tem mais pontos com Deus que eu, que ia na missa todo domingo, e que recusei aquele trabalho em troca de um na NEC, multinacional que me pagaria simplesmente seis vezes mais. Ali eu me rendi ao Capitalismo e fui em busca do tal futuro promissor com casa confortável, carro do ano, viagens de férias e bons restaurantes. Ele não. Ele era bem mais evoluído que eu.

Minhas maiores referências da vida, por serem pessoas honestas, do bem e que buscavam vencer, como meu irmão Altemir, meu tio Airton, minha segunda mãe Sandra, meu padrinho Willian, o próprio Carlos Mc Dowell, eram petistas. Desses que tinham adesivo de estrela no carro. Portanto, eu não poderia pensar diferente tamanha a influência. Em 2003, quando Lula entrou no poder, eu chorei vendo-o na TV. Eu juro que pensei que seria o fim da miséria no Brasil. Eu continuava sonhando com meu futuro promissor, mas não sem sonhar junto que todos tivessem oportunidades de galgar pelo mesmo.

Minha vida seguiu adiante sempre com contato com a vida real, coisa que MUITA gente que eu conheço nunca teve. As ONGs a que pertenci sempre me levaram pro meio das favelas. As obras civis que toquei, enquanto Engenheira, sempre me deixaram ao lado dos pedreiros que passavam, às vezes, mais de seis horas por dia nos trajetos casa-trabalho para ganharem o que eu via que minha empresa lhes pagava (uma miséria) e eu pensava que, com certeza, naquelas condições, eu não sei se não me revoltaria, não me marginalizaria. Era muita humilhação pra uma gente muito sofrida. Eu não aguentava ver. O cara que tinha idade pra ser meu pai, passando seis horas em condições sub-humanas para chegar ao trabalho (só quem passou uma vida inteira sem carro sabe do que estou falando e eu nem sei de tudo, pois nunca morei em bairro de extrema periferia e aos 24, comprei meu primeiro carro) e depois de chegar no trabalho, 12 horas de muito trabalho duro, que lhe exigia muito fisicamente, pra vir um “Chefe de Obras” com seu chapeuzinho branco gritando e humilhando o caboclo para produzir mais? Eu via aquilo e não podia crer. E sabia que aquela era a realidade da grande massa. Um pingo de idiotas no poder, dando chicotada no povo sem voz e sem vez. Eu esquentava a marmita desses caras, uma a uma, no microondas da presidência, não queria nem saber, nos dias que o marmiteiro não estava funcionando. Porque aprendi que gente é gente. Toda gente merece respeito. E continuava a sonhar que meu herói, até então na época, Sr. Pesidente Lula, colocasse sua “capa imaginária” e acabasse com aquilo que eu via todo dia. Eu quis morar sozinha. Morei a 300 passos (da minha cama à minha baia) do trabalho. Qualidade de vida. Mas era na Cracolândia. Eu via aqueles drogados, jogados, pra lá e pra cá, pulava mendigos pra chegar na portaria do meu prédio novinho e pensava, “Meu presidente vai dar um jeito nisso tudo”. Era uma época de esperança.

Fui fazer Engenharia na FEI, em São Bernardo. Pra quem não sabe, significa Faculdade de Engenharia Industrial. Industrial porque forma gente que trabalha, que vai pro mercado, que vai pra Industria e por isso, de muita relevância pro País. Enquanto a FEI formava em média 300 alunos por semestre, o ITA formava, em média 18 por ano. E eu nunca trabalhei com alguém do ITA. O foco é outro: os caras saem do País, são estudiosos, cientistas, a nata. A Fei, eleita a melhor segunda faculdade de engenharia do País das particulares, forma gente real, dessas que estão por toda parte no mercado de trabalho. Lá, em meio ao ABC, terra do Lula e dos sindicatos fortes, com certeza a influência não foi diferente. Toda minha base política foi de esquerda.

Deixei pra votar aos 18. Aos 16, quando era facultativo, não me animei. Política nunca foi meu forte.

O tempo passou e não foi exatamente como pensei. Mas as coisas melhoraram. Pra todo mundo. Lembro que quando a Marta Suplicy foi prefeita, ela encarou de frente a Máfia das empresas de ônibus e se fez refém de uma greve longínqua, lutando para que as empresas investissem mais em novos ônibus, novas linhas, enfim, reduzindo seus lucros. Foi uma briga ferrenha, a greve era um mal necessário. Pra quem tinha carro, na época, e via tudo na TV do jeito que mostravam, não perceberam as mudanças. Ficaram com o “relaxa e goza” em suas mentes, como única marca da Petista no Poder, e nunca puderam sentir na pele o que eu senti: mais ônibus em melhores condições. A duras penas ela fez pequenas melhorias. Não venceu a guerra, mas partezinha da batalha. Eu pegava ônibus com banco quebrado antes. E passei a subir nos novos veículos. Mas quem anda de carro não via nada daquilo. Quando converso com taxistas mais velhos, eles me contam que ser pobre hoje é muito melhor que ser pobre antigamente. Hoje pobre consegue comer carne de segunda todo dia, o que não acontecia há duas décadas atrás. Muita gente saiu MESMO da linha da miséria nesse país enquanto o PT governava. Minha mãe continua morando em bairro simples, Lauzane Paulista, e quando vamos ao Mercado imenso que tem por lá, e o vemos lotado de gente simples com seus carrinhos cheios, vejo que as coisas realmente mudaram. Eu tenho amigos ainda muito simples, mas que graças a Deus podem ter um pouco mais de dignidade indo ao trabalho, apesar do trânsito, com seus carrinhos quase quitados. Não se vê tantos carros velhos na rua, como quando eu era criança, aquelas coisas caindo aos pedaços. Na Itália, conheci a Jaque, uma assistente social que audita o bom uso do Bolsa Família: bem cedo está nas favelas, pra ver se as crianças foram pra escola, para pesar os bebês e verem se estão ganhando o peso que deveriam, e quando as coisas não acontecem, o benefício é cortado. Agora, falar que muito “vagabundo” recebe o Bolsa Família e não deveria, aí é problema do Brasileiro e só gerações e gerações sendo bem educadas poderão acabar com o bom e velho “jeitinho brasileiro” de querer levar vantagem em tudo! Mas aí não vale só falar da senhora que antes era rendeira a agora passa a tarde na rede deitada em Recife porque recebe o bolsa família! Não vale! Se é pra falar de vagabundo, vamos falar de todos nós: do amigo que simulou pagar aluguel com recibos do tio para processar a Construtora e pedir ressarcimento de valores nunca pagos, do amigo que deu golpe no seguro do celular que o filho adolescente perdeu na praia mais que fez Boletim de Ocorrência como se fosse assalto para receber um Iphone novo, do amigo que não avisa quando o restaurante esqueceu de marcar algum item em sua comanda só pra pagar menos já que aquele lugar é caro mesmo, do amigo que dá um dinheirinho extra pro garçom lhe servir umas boas doses de whisky a noite toda sem colocar na conta do bar, do amigo que paga um dinheiro extra pro peixeiro do Supermercado para colocar um peso menor de camarão perto da sexta-feira santa, do amigo que faz notinha falsa de gastos e pede reembolso pra empresa, do amigo que paga alguém lá no DETRAN para livrar sua habilitação que estourou em pontos, do amigo que não se conforma com a repetência do filho na escola e faz passar no Conselho, do amigo que compra o aparelhinho da NetGato e tem sinal de TV a cabo em casa sem pagar um tostão por mês às Operadoras, pro amigo que inventa coisa na declaração anual do imposto de renda, e eu poderia passar o dia escrevendo “vagabundices” que, tenho a ligeira impressão, são tão nojentas quanto o cara que ganha o “Auxílio Pesca” do Governo sem nunca ter pescado.

Portanto, quando eu vejo esse monte de gente reclamando, de barriga cheia, revoltados com o preço do Dólar porque perigam cancelar sua viagem pra Disney desse ano, eu sinceramente sinto uma preguiça enorme e uma sensação de que “não sabem de nada, inocentes.”

É revoltante essa história de Lava Jato. É. Também me embrulha o estômago. E como eu sonho que pela primeira vez no Brasil tenhamos punição, pra quem quer que seja, Lula, Dilma, Serra, o fdp que for! A esta altura, vivo a fase mais sem heróis de toda minha vida! Foi um golpe em meu coração ver um vídeo do Lula destratando um estudante de periferia num dia de inauguração de uma quadra chinfrim no bairro que ele morava. Ele não é mais gente. Ele se corrompeu, é fato. E pra mim, ele é pior que todos os outros, que nasceram em berço de ouro e não têm a menor idéia do que é a vida de um pobre. O Lula não. O Lula veio de pau de arara pra São Paulo porque não tinha o que comer na caatinga onde morava. O Lula não poderia nunca ter se esquecido de tudo que viveu e viu as pessoas viverem. É, de fato, imperdoável. Eu cresci no País da impunidade. Desde criança Maluf rouba o povo, faz viaduto com preço de quatro, cinco, rouba até nos frangos das crianças da escola e nunca vi o Maluf se ferrar. Ouço um monte de imbecil falando “que ele rouba mas faz” e nunca vi multidão na Paulista indignada com uma postura dessas (ps>esses malufistas, obviamente, não pensam isso quando a abrangência é sua casa, só quando é no seu País: veja se eles contratam uma diarista que rouba mais faz?! Não. Não contratam). O que quero dizer é que o Brasil é o País da Impunidade desde que me conheço por gente. Pra mim, não será novidade nenhuma se essa Operação toda não der em absolutamente em nada. Não que eu queira, que eu me conforme, que eu ache que devemos desistir, mas na boa, sem a parte do discurso que diz que o problema é o PT.

O Problema não é o PT. São todos os partidos. É o Brasileiro! E realmente chegou a hora de mudar isso tudo. Mas como? Eu não sei a resposta.

Mas a resposta que eu queria dar é: dada toda minha vivência, toda minha gratidão pela vida que hoje levo (apesar de ter MUITO a melhorar, obviamente) e dada a minha IDEOLOGIA de que um País deve ser governado para a maioria, e a maioria do Brasil ainda é pobre, é por isto que eu jamais votaria no Aécio. Isto está muito longe de ser simpatizante da Dilma, de defender o PT de hoje em dia. Eu não tenho quem defender. Mas de uma vez por todas entendam, que enquanto vocês acreditam que quem vota no PT é cego, na verdade não é isso. É só um jeito diferente de pensar, de olhar, talvez menos egoísta, mais altruísta. Eu não votei no PT no primeiro turno. Votei na esquerda. No segundo turno, propositalmente me abstive, pois saberia que a Dilma ganharia. Não valia a gasolina ir pra São Paulo votar, tamanho desgosto pelos candidatos. Mas o que quero dizer, é que sou, intrinsicamente, de candidatos que lutarão pelos mais pobres e isto não é ser imbecil.
Outro dia uma patricinha com sua SUV me fechou no trânsito, inconformada em eu não dar a ela vez para entrar na minha frente (mimada, queria entrar a qualquer custo e entrou) sendo que ela tinha cortado um caminho pela direita da Raposo como se fosse pro Shopping mas não foi (eu vi), só pra passar na frente de dois ou três carros. Eu deixei. Não ia bater o carro por bobeira. No vidro de trás o retrato de sua geração: dois adesivos. Um dizia “Medicina USP” e o outro, “Não foi minha culpa. Eu votei no Aécio.” Pensei comigo: Tá explicado. É muita ingenuidade achar que o problema é só o PT. É mais ingenuidade ainda achar que o Aécio salvaria a Pátria. Esta é minha opinião. E essa patricinha é o retrato dessa geração que se reúne na Paulista sem nem saber porque está pedindo ou contestando. Como rebeldes sem causa...  

“Meus heróis morreram de overdose... Os meus inimigos, estão no poder...

Ideologia, eu quero uma pra viver!”


domingo, 21 de setembro de 2014

"O show tem que continuar"

"O show tem que continuar."
Esta seja talvez, a maior regra da vida de quem tem dentro de si a necessidade de ser feliz. 
Por que a vida não pára, por nenhum só segundo, para que entendamos o que aconteceu, para que enxerguemos o lado bom que toda mudança traz. A gente fica lá, perplexo, parado, chorando, não quer, não concorda, não se conforma... Mas nada, absolutamente na-da disto faz, fez ou fará a menor diferença: a vida simplesmente segue seu rumo, impetuosamente. 
E deixa pra trás todos que decidiram parar seja para se lamentar, pensar ou simplesmente chorar. 
Isto eu aprendi perdendo amores ao longo da vida. Alguns ex namorados, a melhor amiga com câncer que se foi, aquele tio preferido, o emprego ao qual dedicava boa parte de minha vida ( primeira demissão a gente nunca esquece)... Mas a vida seguiu enérgica: cada minuto chorando foram simplesmente sessenta segundos que perdi de felicidade. 
Mais do que isto, percebi que enquanto eu decidi "parar", perdi oportunidades de empregos melhores, perdi a chance de ficar com o cara que seria o pai de meus filhos, perdi mais um dia de alegria com amigas que Deus permitiu estarem por mais tempo ao meu lado, e há perdas que são simplesmente irreparáveis. Mas enfim: não pára, não pára, não pára!
A vida não pára. E se você quer verdadeiramente viver, cada minuto como se fosse o último, "deliciar-se com a fruta da vida e chupar até o caroço", você precisa 'não parar'.
Dizem que depois que a gente morre, quando em algum lugar Alguém passa a régua, a única coisa que a gente leva são os momentos em que fomos veradeiramente felizes. Nossa bagagem eterna: momentos de felicidade. E ninguém quer carregar uma mala destas vazia por aí. Então, temos todos a obrigação de sermos felizes. E a vida, ou Deus, ou seja lá no que você acredita, vai te cobrar por isto.
Pode parecer nebuloso agora, mas a dificuldade ou adversidade que passamos hoje tem um propósito, um sentido, mas que a gente só consegue enxergar se seguir caminhando, se escolher por não parar, porque somente lá na frente é que a névoa passa e você consegue enxergar coisas que agora são impossíveis. 
O mais mágico é que podemos seguir QUALQUER caminho, desde que seja em frente. 
A escolha é sempre nossa. Neruda já dizia que somos livres para escolhas, mas escravos das consequências. 
" A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."
Você pode seguir aos prantos, ou com lágrimas nos olhos, ou com nó na garganta. 
Você pode seguir se perguntando, buscando respostas e novas inspirações. 
Você pode seguir xingando, até isto seria melhor que não seguir.
O importante é seguir. 
Parar não trará respostas, nem conforto pra nenhuma dor, nem novas possibilidades.
A vida é o nosso próprio espetáculo, sem ensaios, sem breaks, sem o fechar das cortinas... 
Por vezes, o "mocinho" da nossa cena simplesmente vai embora e você pensa "e agora?!" mas não tem mais que alguns segundos pra improvisar...
Temos que ser protagonistas de nossa própria estória.
É duro, mas pra gente ser feliz, "o show tem que continuar..."

domingo, 7 de setembro de 2014

Filho da Culpa!

Depois de um longo dia de trabalho, eis que chegamos na casa de meus pais que carinhosamente nos hospedam nesta semana por conta da reforma em nossa casa.
A porta da edícula está trancada. Queremos pegar algumas coisas lá dentro. A chave não entra, não está funcionando.
- Só pode ser culpa do seu pai! - disse minha mãe aflita. - Ele chegou do trabalho com mais uma caixinha de cerveja e eu falei que jogaria fora - minha mãe se preocupa mais com a saúde do velho do que ele próprio, que sabe que não pode beber nem socialmente mas bebe.- Aí ele veio bravo aqui pra fora esconder as cervejas e pôs a chave errada e forçou e agora tá quebrado.
- A culpa é sua, Leu. - meu pai se defende da cozinha. - se você não me importunasse assim, não teria acontecido.
Peguei uma faquinha e tentei, tentei futucar pra ver se voltava o miolo à uma posição que entrasse a bendita chave certa. Nada. 
Esperamos meu marido terminar o banho. Veio ele.
Colocou a chave pelo outro lado e não conseguiu de jeito nenhum virar a chave. Viu a faquinha. 
- Que é essa faquinha? 
- Eu que usei pra tentar arrumar.
- Então a culpa é sua! Você com essa faca estragou e por isso a chave não está virando. Se não minha estratégia iria funcionar. 
Olhei bem pra cara dele. O ciclo havia fechado: cada um tinha encontrado seu próprio culpado e a porta continuava lá, trancada e emperrada.

Como me lembrou a vida! Onde a gente perde tanto tempo e energia tentando achar a culpa sendo que isto simplesmente jamais "vai abrir nenhuma porta."

Merece uma crônica, pensei eu. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Alegria e OVNI de pobre dura pouco

Vamos falar de objeto voador não identificado. Hoje eu vi um. Ontem eu vi outro. Antes de ontem outro. Com esse tanto de miopia, olhou pro céu, não sabe o que é, por definicão é OVNI.
Mas a questão é que eu sonho em ter um amigo extraterrestre. Queria ver um extraterrestre. Como no filme que passa na Globo em quase todos os Natais. E por assim desejar, vivo olhando pro céu. Tem lá suas desvantagens, como pode confirmar outros amigos lunáticos como o Daniel: dificilmente vemos joaninhas.. Neste ano ou no ano passado (sou incapaz de guardar se quer se meu carro é zero quilômetro ou não), compramos um carro com parabrisa Zenith, pra ver ainda melhor o céu, tamanho nosso interesse pelo assunto (eu e meu marido). Mas hoje algo inédito aconteceu: eu vi uma bola de fogo caindo do céu. 
"Datênica" que sou, achei que era um avião caindo. Pensei comigo: Marina despencando nas pesquisas, na marra. Cruzes! Estacionada no trânsito de São Paulo, pude acompanhar a trajetória meio hiperbólica da bola de fogo quando de repente: puft! Sumiu. Não foi até o chão, sumiu antes.
Pensei comigo: estrela cadente. Será que só eu vi? Era bem grande.
Trilha sonora na minha mente (que é uma viagem): "Quando o segundo sol chegar, para realinhar as órbitas dos planetas, derramando com assombro exemplar, o que os astrônomos diriam se tratar de um outro cometa..."
Fiquei viajando sozinha, eu, eu mesma e Irene e pensando como seria uma invasão alienígena na Terra. Eu acredito mais em vida inteligente fora da Terra do que em vida inteligente por aqui, pra falar a verdade, ultimamente. Diria que somos um Planeta de disléxicos perto do que eu acredito que exista por aí. Então, eu sempre imagino os extraterrestres como grandes PMOs, dando as diretrizes de nossa ocupação por aqui, do tipo: "Está faltando água? Faz isso aqui ó", "Multiplique os mico-leões-dourados e araras-azuis assim", etc. Nos mostrando o caminho certo que sozinhos não parecemos encontrar. Meu irmão já não. Ele sempre diz que ele os receberia como naquele filme Sinais (o filme que a menininha deixa copos de água espalhados pela casa - se fosse palito de dente usado, lá em casa seria o Leo que nos salvaria). Meu irmão fala que ia dar uma tacada de baisebol na cabeça do extraterrestre já gritando: "Que você está fazendo aqui?" E eu me pergunto: cadê o taco de beisebol que ele sempre fala que usaria mas nunca se quer comprou? Rs.
Lembrei também do jantar com amigos de sábado, em que a Barbara compartilhou do desejo de ver ETs. Pensei: "será que rolou a lei da atração? Falamos sábado disto e hoje eu vi?" Diga-se de passagem descobri sábado que existe uma ONG de Sacis. Que eles existem e são cuidados numa cidadela de Minas Gerais e que o que usam na boca não é bem um cachimbo, mas um pedacinho de palha no canto da boca. Meio bicho. E difícil de ver porque aparecem muito rápido. Hoo, gente.
Lembrei de um sonho que tive que todas as luzes do mundo se apagaram e ao olharmos pela janela, víamos uma grande nave mãe chegando à Terra para o juízo final. Não, eu nunca fumei maconha e não tomo alucinógenos antes de dormir. No sonho, fui andando com um grupo até o Guarujá e de conhecido, só meu marido. Sentamos numa sala desconhecida e começou o julgamento: era um Quiz. Tipo Show do Milhão, de conhecimentos gerais mesmo. E eu não sabia a resposta. Pesadelo, não? Tempos depois disso vi aquela palhaçada/farsa do Nibiru mas achei coincidência o jargão dele ser "Busque conhecimento". Tinha a ver com meu sonho. Eita.
Fiquei feliz por ter visto algo novo. Tirou meu foco dos mais de quinhentos (não, não escrevi errado: mais de quinhentos!) quilômetros de lentidão na Grande São Paulo na terrível hora do rush. Fiz algumas ligações usando o viva-voz do carro e na que liguei pra Ursula até falei:
- Acho que vi uma estrela cadente. Parecia um avião caindo. Mas depois parecia uma estrela cadente.
- Cê fez um pedido?
- Não fiz na hora. Fiquei viajando..
- Pede agora.
- Agora? Mas já passou.
- Vai ficar de frescurinha?
Pausa na ligação. Por isso que eu adoro meus amigos. Sempre me encorajando na vida. Fiz o grande pedido da minha vida e do meu momento. Se der certo, prometo contar. Antes de dar, não posso aue dá um azar danado.
Foi assim.
Postei no Facebook perguntando se mais alguém tinha visto. "A vida é tão rara", quem olha pro céu? Os primeiros comentários foram insinuando que as minhas "faculdades" mentais são dessas sem aprovação do MEC. Ou perguntando o que eu fumei. Eu nunca fumei. Meu irmão, o mesmo do taco de beisebol, mandou eu ligar pra "tiazinha". Tonto. Fiquei refletindo qual o crivo dos ETs para escolherem quem abduzir? Escolheram a Tiazinha porque ela é magra e seria foda me abduzir? Ou será que é porque ela é linda e tem o gene que eles querem roubar? Pra fazer um planeta de Tiazinhas? Ou será que escolhem só as pessoas de menos credibilidade na sociedade porque aí serão classificadas como loucas e pronto, ninguém nunca vai acreditar.
Aí fiquei pensando: acreditariam em mim se eu visse? Duvido. Iriam achar que eu estava louca... Ia ser frustrante. Mas ainda assim divertido. 
A esta altura, eu estava ouvindo a rádio Sul América Trânsito e outros ouvintes mandaram SMSs e emails dizendo que viram uma bola de fogo caindo do céu! Fiquei feliz! Não era somente eu e o Daniel que vimos! Mais pessoas. Logo: não estou louca. Feliz por atestar minha sanidade e por ver algo raro.
Liguei para a afilhada e contei que vi uma estrela cadente. A pequena Maria Clara, minha afilhada linda, carioca de oito anos me faz uma senhora declaração de amor:
- Dinda, se eu visse uma estrela cadente eu pediria você aqui no meu aniversário.
Óbvio que estou com outra janela da Submarino aqui procurando passagens em conta pro Rio de Janeiro!
Jantando sozinha, enquanto Leo tomava banho. Passa das dez. TODOS os cachorros da rua latem. Medo. Eles estão de olho sempre e se latem todos, algo tem. 
Um barulho estondiante na rua. Barulho alto e meio de "nave espacial".
Medo e curiosidade. 
Invadiram? Deixe-me ver no trend topics do Twitter. Nada!
Neste instante pesquisei na Internet algum relato, alguma notícia. O último foi em Fevereiro. Descobri um tal site do BRAMON - Brazilian Meteor Observation Network. Mandei-lhes uma mensagem dizendo o que eu tinha visto, data, hora e local. E em poucos minutos veio a resposta: era de fato um grande meteoro! As câmeras capturaram o verdadeiro bólido.
E acabou-se o que era doce. 
Não temos mais um OVNI. 
Olho na janela. Lá na rua, não passava do lixeiro passando. 
Segue a vida pacata. Sem "alô, alô, Marciano!" 


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Nosso Projeto Itália JK

Segundo dia foi intenso. Esse nosso planejamento da viagem, conhecendo o máximo possível no tempo que conseguimos pagar é ousado. Mas se a gente se esforça pra trabalhar, vira noite atrás de noite implementando Projeto de TI, não é neste Projeto Férias que vamos reclamar. Tudo bem que precisaremos de outras férias pra descansar destas férias 😄, mas teremos uma semana pra descansar (não digo acabar com o sono atrasado porque ninguém quer entrar em coma nesta encarnação). Pois bem, nosso Projeto JK na Itália: 50 anos em 5 foi um sucesso neste segundo dia. Nunca vi e conheci tanta coisa diferente em tão pouco tempo... 
Nos rendemos ao mundo da moda de Milão e visitamos a Oscar Freire dos caras: simplesmente deslumbrante! A mistura do velho com o novo, aqueles pisos maravilhosos e as marcas mais famosas do mundo, num caminho de muito glamour e luxo. A história da moda de Milão não acontecera por acaso: desde os primórdios da História, era naquela região que outros países da Europa buscavam suas roupas: o couro era melhor e os homens italianos (sobretudo fiorentinos e venezianos) já ditavam tendência com roupas que faziam valorizar o homem, por seu estilo e vaidade. Hoje isto se potencializou: as maiores marcas de moda estão aqui e continuam ditando tendência em todo o mundo. A qualidade perdura. O estilo e exclusividade também. Um desafio sobrevivendo à Revolução Industrial, ao trabalho escravo na China e outros países. Eu não compro. Nem que pudesse, não me faço entender uma bolsa custar R$ 6000 (as nem tão caras) (dá pra comprar um fusca!!!), mas confesso que como esposa de publicitário fico admirada com o poder que as marcas têm, a capacidade de agregar valor num pedaço de pano e a quantidade de dinheiro que isto gera. Louváveis as marcas ali vistas. Ao fim das ruas de lojas e mais lojas, a belíssima Catedral de Milão. Meu Deus! A Obra mais linda que já vi! E estar ali, na frente dela, é diferente de ver uma foto ou assistir um documentário da Discovery: simplesmente emocionante! E não falo como católica, mas como Engenheira: foram 6 séculos de construção! Eu disse 600 anos. Tem noção? Demorou tanto que começou no estilo gótico e terminou como neo gótico. Lindíssima! Piso, teto, colunas/pilares, muito mármore, belíssimos vitrais, verdadeiras obras de arte! Linda mesmo. Me emocionou ver um belíssimo trabalho de tanto tempo entregue com tanta excelência e riqueza de detalhes. Obviamente, eu que acho Templo de Salomão e Aparecida do Norte uma palhaçada, pois pregam tanto a simplicidade aos fiéis mas de simples não tem nada, não me emociono (e nada) do ponto de vista católico, mas como Engenheira, é inevitável. Tanto é que um dos beatos italiano de tempo em tempo sai na porta da Catedral aos berros com os caras de Senegal ou Angola, sei lá eu, que tentam ganhar a vida conseguindo uma gorjeta ou outra dos turistas: que bonito! Tanto ouro e pouca nobreza ( como em toda história), enxotando os negros como se fossem cachorros. Como África sempre foi meu ponto fraco, eu adoro aquele povo africano, fui conversar com um deles. Comprei a bendita pulseirinha dos caras (quase obrigada mas confesso que morro de pena pois sei que estão ganhando a vida) e brinquei com os pombos. Sei que é nojento, mas foi tudo tão rápido que quando vi já tinha feito uma sucessão de merdas: peguei uns milhos de pipoca e abri as mãos e o africano assobiando diferente atraiu muitos deles pra cima de mim: foi assustador e emocionante ao mesmo tempo (eu piro em gente que "fala" com bicho-hahaha) e tão extasiada que fiquei, tentando tirar foto com uma mão e dando comida aos pombos com a outra (meu Deus! O pombo é um rafo que "avua"! Que eu tava fazendo?) dei até a câmera pro cara me fotografar! Leo estava longe, corri todos estes riscos sozinha. Depois que passou vi a sucessão de besteiras mas graças a Deus nem peguei doença de pombo e nem fui roubada. E fiquei feliz em ajudar o africano. Porque "deve ser legal ser negão no Senegal" mas na Itália, olha, não deve ser nada fácil...
Milão, por ser o lugar mais rico da Itália, apesar de ter transporte público que funciona e tal, tem muito mais um ar de antigo que de novo e moderno. Tropeçou, caiu em história. Nos sentimos assim por aqui.
Saímos do centro comercial de Milão e fomos conhecer o belíssimo Lago di Garda, na província de Sermione, enorme, com 384 km quadrados (pelo que lembra o Leo. Requer confirmação, tipo Wikipedia). Um lugar Muito chique! Tipo uma búzios misturada com o lago de Brasília, onde gente endinheirada tem casa de veraneio. Os carros são os mais luxuosos ever! Os hotéis são spas e pra deixar o roteiro pra Rei nenhum botar defeito, tem um belíssimo Castelo! Aprendemos a diferença entre Castelo e Palácio: castelo tinha a função de proteger e palácio era só pras pessoas morarem. Passeamos de barco por todo o Lago, um dos maiores do Mundo. Passou a existir depois que derreteu gelo na era glacial. Por ser glacial, é muito gelado. Só tem uma "prainha" em que as pessoas conseguem nadar/mergulhar por ser mais quentinha. Fora isso, elas se banham mesmo nas belas piscinas que as casas têm. Quente mesmo é a 20 metros abaixo do chão onde a água é pega a 70 graus Celsius para abastecer todo o complexo de casas. Muito legal! 
Depois do passeio de barco, pausa pro pipi-house, onde uma senhora brasileira na minha frente discutiu com o italiano que cobrava 0,50 Euro pra entrar porque estávamos pagando e não tinha papel e ele mandou ela entrar em silêncio e se virar, que estava parecendo uma louca. Sim, comprovado: embora nós especificamente ainda não tenhamos sido maltratados pelos locais, é fato que a Itália é um dos lugares mais visitados do mundo e como "a água nunca lhes bateu na bunda" por falta de turistas, eles querem de fato que a gente se ferre. São grosseiros sim. Mas já tinha vindo preparada e como sou "jagunça", não tão sensível (nem de TPM), nem ligo. São dez dias aqui pra ser feliz. Que bom que os melhores italianos estão no Brasil porque lá sim, son tutti gente boa, ma que! 
Entramos num café, comemos lanche de presunto parma e tomamos o delicioso sorvete italiano (em qualquer esquina o sorvete é maravilhoso como Bacio de Late no Brasil, mas ainda não comi um que fosse tão melhor como descreveram. Bacio di Late é igual ao daqui, na minha opinião) e depois de manjarmos, seguimos nosso Projeto JK.
Estrada belíssima! Conhecemos a região que eles chamam de Venetto, onde estão as principais industrias. E assim também é Verona, que pela explicação da guia lembro que associei: "Verona é tipo São Bernardo daqui."
Chegamos em Verona! A belíssima muralha ainda presente até hoje, que antigamente demarcava o que era Verona ou não, o antigo teatro que foi todo depenado e hoje parece uma obra inacabada ou ruínas de um passado distante, mas ainda assim o utilizam como lugares de belíssimos espetáculos como Ópera, por exemplo. Era meio parecido com o Coliseu de Roma: também é imenso e redondo, havia simulações de batalha naval no passado, era o "circo" do pão e circo pro povo de Verona. Por um tempo, deixou de ser importante cuidar deste patrimônio histórico e depenaram a obra toda: tiraram os mármores e quebraram boa parte. E assim está até hoje, mas virou style. Rs. Os italianos de Verona são mais bonitos, na minha opinião. Parecem mais com o esteriótipo italiano que vemos na TV. Tentamos (só tentamos e desistimos) colocar a mão na peitchola de Julieta. Nunca vimos tanta gente como na casa de Julieta. A bela história Shakespeareana inspira até os dias de hoje... Tomara mesmo que tocar o seio traga a todos um amor! Nesta viagem por várias vezes refleti sobre a minha sorte e benção de ter o Leo. A gente se ama e se diverte um bocado nesse negócio chamado vida... Brincamos de hora da vingança e enquanto eu estraguei 3 fotos de chineses ( pra vingar todas as atravessadas que essa chinesada deu em minhas fotos ), o Leo peidou em meio a um grupo de indianos! Hahaha
Em Verona tivemos a sorte de uma feirinha. Mas a verdade é que em Euro, nada é barato. Saímos de lá ao fim da tarde e depois de chegarmos no Hotel em Veneza (continental), tomarmos um banho de 15 minutos ( batemos nosso récorde) ainda conseguimos sair correndo e pegar a saída pra um passeio que foi o ápice do dia: Veneza Iluminada. Sur-re-al!
Vou contar cada detalhe da nossa estada em Veneza no próximo post. De dia e de noite. Estou ainda procurando as palavras pra descrever a beleza que é Veneza. Terminamos a noite embriagados de amor e vinho, em plena Piaza di San Marco. La Sereníssima!

sábado, 16 de agosto de 2014

Primeiro Dia - Milão @Itália

Primeiro dia da viagem de férias foi rico. Depois de passarmos 11 horas no vôo mais cansativo da minha vida, vi que talvez ir pro Japão não seja um sonho pra ficar na lista. À medida que vamos ficando velhos, e não vamos ficando proporcionalmente ricos e continuamos na classe econômica, fica complexo viajar tão longe. Alitalia tem bom atendimento de bordo mas o banco parece uma tábua e me fez lembrar um cinema 4D dos EUA que cutucava as costas em meio ao filme: o banco da Alitália parecia que tinha um cotovelo bem no meio das nossas costas. Pra piorar, um encosto que joga sua cabeça pra frente, como se fosse um "pedala, Robinho" eterno. Vin-gan-ça. Mas não desligue agora: tem uma bendita caixinha de ferro na frente de todo banco, com o tamanho de um estabilizador, que impede que você estique as pernas a menos que seja de pernas abertas. Ruim. Ruim mesmo. Já fiz viagem de 18 horas e dormi 14. Nesta, se dormi uma hora foi muito. Já no vôo começa o lance do fuso: como a Itália está a 5 horas pra frente do Brasil,  umas 16h do Brasil já serviram o jantar ( que seria umas 23h na Itália) e durmam. O máximo que eu já tinha vivido de fuso eram 6 horas de diferença em Seattle, só que pra trás: um paraíso! Meu despertador tocava às 07h e meu corpo acordava feliz da vida, pois pra ele era uma da tarde. Mas aqui é o contrário: já são meia-noite e meia, meu corpo pensando que nem começou o Jornal Nacional e não quer dormir. Mas vamos que vamos. O vôo foi portanto cansativo mas não se pode reclamar. Tinha uma porção de gente no nosso vôo que tinha vivido um trauma no vôo anterior: um moço de 24 anos teve um AVC e faleceu em pleno vôo. Eles estavam sobrevoando o Atlântico, há mais de 4 horas do Brasil, e tiveram que voltar, com o moço que faleceu. E estavam em nosso vôo, tristes e ainda mais cansados, pois somadas às 11 horas do nosso vôo, teriam as 8 horas do outro, fora o trauma. Conversar com a mãe do médico que tentou salvar o rapaz fez parar pra pensar... Quanto nossa vida é frágil, como fazemos planos e planos e planos e de repente, tudo pode acabar, porque pra morrer basta estar vivo, sabe? Rolou uma tristeza mas uma fome ainda maior de viver, de aproveitar tudo que nos é possível, de realizar os sonhos, de ter um compromisso com a alegria e só. Só por isto já foi rico o dia. Pela reflexão.
Chegamos no Aeroporto de Roma, que deve ser porta de entrada pra muitos países da Europa: maior zorra! Tumulto, muita gente do mundo todo, ninguém faz fila, um passando na frente do outro, enfim: o Velho Mundo pode ser primeiro mundo mas não se parece com o primeiro mundo EUA, por exemplo, onde tudo funciona perfeitamente. Mas o fato de estarmos num lugar com pouca violência, poder transitar com minha câmera profissional na rua, já é um fruto a se colher do primeiro mundo. Delicioso fruto! Dizem que a violência aqui é tão pequena que nem as caixas d'água têm ladrão, rs. Mas que é uma bagunça é: furam mais fila que brasileiro, quando conseguem formar fila. À primeira vista deu uma impressão de que a Itália é o "Rio de Janeiro" da Europa: gente despojada, culturalmente mais "malandra", bonita e bronzeada. Tem quem ame, tem quem odeie e segue o jogo! 
Os italianos são de fato, charmosos. Piscadela do piloto no avião à todas as mulheres mostram esse jeito italiano que vemos nos filmes, galanteador, conquistador. As mulheres são igualmente belas: afinal Boticário delas é Versace, né, benne? Mas andam com os cabelos esmarfanhados, parecendo a "Mendigata" do Pânico.
Fomos esquecidos pela agência que deveria ter nos proporcionado o translado aeroporto - hotel. Sem problemas: pegamos táxi e seremos reembolsados. O duro foi participar das gravações do filme Velocidade Máxima 6 com o tal taxista nas auto pistas: mais de 140 km/h , sem seta, brigou com uns 10 nos caminho entre fechadas e freiadas em cima. Não gostei. Eu cogitei mentir que estava grávida pra ver se ele pegava mais leve, mas tive medo de distrai-lo e morrermos. Sem trânsito nenhum pelos 40km percorridos. Estradas boníssimas. E pelo visto os radares de velocitá não funcionam. Nosso anjo da guarda bateu 100% de CPU. Dio mio!
Chegamos no Hotel Una Escandinava, tudo bem bonito e antigo. Estilo clássico europeu. Fomos ao Supermercado pra economizar no almoço. Como diz meu amigo Laki, melhor comer um sanduba no almoço pra jantar, se não fica muito caro. Mas sem sofrimento nenhum, porque o presunto é parma e o queijo é brie. Ficamos encantados no supermercado! Passeamos também na feira mais famosa ce Milão: uma mistura da nossa feira normal de frutas e legumes (pastel não vai estar tendo - risos), somados a bugigangas da China e roupas tipo Bom Retiro, de qualidade e gosto duvidoso. A feira deve ser sinal da crise pois vendem até papel higiênico na rua, coisa que nunca eu tinha visto no Brasil. Não compramos nada na feira. Os feirantes parecem ser do mundo todo. 
Descansamos e aproveitamos o Hotel, bastante confortável, e saímos em busca de um Pub com cervejas artesanais: dobramos a esquina e pronto! Lá estava: BQ. Eu bebi água com gás, deliciosa, e dei umas bicadas nas cervejas do Leo, que encantado ficou a noite toda. E comi um delicioso Hamburguer Gourmet, com gorgonzola e cebolas caramelizadas. Per-fei-to! Cozinha aberta pra gente ver todo o preparo, bar acolhedor e atendimento muito amistoso. 
Nossa língua não é mais tão fraca, onde falávamos que éramos brasileiros, tinha alguém pra nos ajudar e ser gentil falando "obrigada" ou "boa tarde", seja no mercado, no hotel, ou no bar. Portugal aqui do lado ajuda, óbvio.
Saldo do dia do meu digníssimo marido na busca das cervejas perfeitas: Duvel Tripel Hop (que no Brasil custa R$25 e aqui, 2 Euros), as locais que são como Brahmas na Itália, se chama Tuborg, as artesanais: uma com nome de passarinho Cracatua (IPA), Sumer IPA (IPA mais fraquinha com frutas tropicais), Hopbloem 5,7* (amarga) e assim viveu feliz pra sempre! 

Isto porque estamos na terra do vinho! Se formos pra Alemanha...medo!


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Beco sem Saída

Ontem estava na casa de meus pais e assisti ao Fantástico. Não é o que gosto de assistir num domingo a noite pois, domingos a noite já são suficientemente depressivos para que tenhamos que ter ainda uma dose extra de realidade. Acho que o SBT deveria passar Maratona de Chaves aos domingos a noite, seguido de Pantera Cor-de-Rosa mas enfim. Fiquei chocada com a reportagem que mostra os policiais que pegaram 2 trombadinhas na rua e os executaram no meio do mato, sendo que, um deles sobreviveu e então tem a estória pra contar. Fiquei pensando que estamos, nós, seres humanos, num beco sem saída. A segurança pública se tornou um beco sem saída...
De um lado, é atemorizante ver as gravações dos dois policiais simplesmente em êxtase por matar dois seres humanos, um de 12 anos e o outro não me lembro. Eles não estavam com uma cara do tipo "puta, que merda, matei um moleque", mas agindo com naturalidade demais a ponto de nos chocar. Chocou porque vimos ali a pior versão de nós mesmos, o lado mais negro do ser humano, que banaliza a morte e brinca de ser deus inescrupulosamente. Como disse meu marido, "rola um prazer em matar. Tipo Hannibal." Pra quem nunca assistiu a "quadrilogia" de filmes do Hannibal (Hannibal, Hannibal - A origem do Mal, Dragão Vermelho e Silêncio dos Inocentes), está perdendo. Minha trama preferida. E ainda tem o seriado. Tem uma coisa que é muito marcante naquele monstro que come pessoas: ele teve seu porquê para virar monstro. Em tempos de Guerra, comeram sua irmãzinha mais nova, sendo que ela era tudo que ele tinha na vida, após já ter perdido seus pais. E é isso que faz refletir na trama: provavelmente sob aquelas condições, eu e você também seríamos monstros, canibais ou o que quer que seja. E assim é a vida. A gente não consegue julgar nenhum lado sem sermos muito injustos: o moleque que talvez nunca tenha tido dignidade na vida, talvez nunca teve condições de ser um cidadão, talvez nunca tenha tido exemplo e nem amor, e que se tornou ladrão, e que amanhã vai ser um potencial assassino porque hoje ele só não assalta porque ainda não lhe deram um três oitão... O policial que ganha uma miséria todos os meses para colocar sua vida em risco todos os dias e vive submerso no mundo do crime, essas coisas que a gente fica horrorizado de ver no noticiário da noite, enquanto tomamos uma canja bem quentinha com a bunda sentada em nossos sofás, sabe? Então, é o dia-a-dia dos caras. Mas ao vivo e a cores. Os policiais vêem bandidos o tempo todo. Eles ingerem ódio, medo e vivem numa selva com leis de sobrevivência que desconhecemos. Você já foi roubado por um trombadinha? Ou um trombadinha já roubou sua mãe, sua avó ou alguém grávida que conhece? Certamente deve ter vindo uma frase clichê em sua cabeça: "essa raça tem mais é que morrer tudo!" Ainda que não tenha tido coragem de falar. Só que aí, quando passa no Fantástico o policial que matou os moleques menores de idade, a gente fica chocado.
Fez me lembrar de duas coisas: uma delas quando fui roubada por um trombadinha de bicicleta na Avenida Paulista. Eu, parada no farol falando no telefone, tinha acabado de sair de uma entrevista (estava desempregada), esperando o semáforo abrir pra eu atravessar, parou um moleque com seus 16 anos, mais ou menos, de bicicleta na minha frente, com um estilete de merda (me zoam até hoje que fui roubada com uma faca de rocambole) e pegou meu celular. Eu me ferrei: perdi meus contatos, na época nem tinha portabilidade numérica e então perdi meu número, tudo isso em meio a inúmeros processos seletivos que estava participando, desempregada. Chorei, chorei. E aquele moleque trouxe a tona o pior de mim. Lembre-se: todo mundo tem seu lado Hannibal, são as circunstâncias a que é submetido que aflorarão ou não o monstro que existe em você. Naquele momento, fiquei com ódio do moleque. Nem lembrei da teoria do coitado que não teve chance na vida. Eu queria meu telefone pra procurar a porra do meu emprego. Chorei de ódio. Sensação de impotência. O valor do smartphone nem era a grande questão, sabe? Embora fosse mais de Mil Reais. Mas todo o contexto do "e se me ligarem amanhã da vaga tal" me deixou verdadeiramente enfurecida. Atravessei a rua e duas travessas pra frente entrei no meu carro popular não zero, ainda que eu tenha começado a trabalhar aos 13, tudo vai dando mais revolta. Dou partida no carro, chorando, e quem passa na minha frente? O mesmo moleque, com a bicicleta. Não tive dúvidas: liguei meu carro e acelerei atrás dele: era pra atropelar! Eu certamente não queria matá-lo, mas quebrá-lo eu queria. Juro. E eu sou canceriana, caçula e cristã. Pra minha sorte ele virou numa contra-mão bastante movimentada e o perdi de vista. Bastaram 5 minutos para eu me perguntar o que eu estava fazendo... Eu poderia ter estragado a minha vida machucando alguém. Às vezes é 1 minuto de Hannibal que acaba com uma vida inteira de Ursinhos Carinhosos que vivemos. Pra minha sorte, não foi dessa vez. Mas me lembrei de tudo isso ontem antes de julgar impetuosamente os policiais. Todo mundo quer que mata, mas ninguém quer ver matando.... Este é o ponto.
Lembrei de uma segunda vez, descendo a Ladeira de Porto Geral, na região da 25 de Março, e um homem bem vestido bateu a bolsa de uma senhorinha. Mas foi pego pelos próprios camelôs da rua que gritavam "aqui, não, fdp! Aqui você não vai roubar não", preocupados com suas vendas e não com a velhinha, obviamente. Colocaram esse ladrão num poste e bateram muito nele, até a polícia chegar para supostamente salvá-lo. Eu assisti a cena aos prantos de dentro de uma loja, onde me enfiei pra fugir do tumulto. Ninguém quer saber porque o cara roubou a velhinha. É justo roubar a velhinha? Claro que não! E bater no ladrão? Ninguém sabe se ele era um vagabundo que ganha a vida roubando ao invés de acordar cedo e pegar uma enxada ou se ele era um desesperado desistindo de lutar nessa terra de ninguém com filho pequeno com fome em casa. Você acha que os policiais fizeram algo melhor pra ele que a surra que ele tomou dos ambulantes? Não gosto nem de pensar.... Mas enfim, a mesma Ana que quis atropelar o trombadinha da bicicleta estava ali, chorando, pedindo pelo amor de Deus para pararem de bater no trombadinha da 25. Talvez me pegou num dia melhor: eu não estava desempregada e a velhinha não era minha mãe. Mas o fato é, os Direitos Humanos, que tanto criticamos e achamos que só atrapalha tudo, luta pelo direito que por vezes nem sabemos que queremos ter: o direito de não presenciar, de não aceitar, de não existir esse tipo de coisa, tão desumana que é virar bicho e tratar o próximo como animal.
Aqueles policiais eram bichos, era nítido nas filmagens. Ninguém mata com tanto prazer..,
Os moleques, idem. Se não não estariam no mundo do crime. 
E assim segue nossa vida, onde morre mais gente por aqui nessa guerra de animais do que nas guerras santas entre palestinos e judeus que tanto nos assustam. 
Estamos num beco sem saída.
A gente não sabe nem pra quem torcer porque não sabemos mais quem é o mocinho e quem é o vilão...