sexta-feira, 30 de outubro de 2009

LUZIAS: CORRER POR QUÊ? (Eucledson Salvador)

Luzia, a brasileira de Lagoa Santa, passava os dias correndo: caçando, coletando, fugindo de predadores, alimentando e protegendo a sua prole.

Luzia, a brasileira da Paulista, sem filhos, dez mil anos depois, não corre, aliás, não precisa correr. Pelo menos é o que aprendeu na FEA da Economia, na GV do Mestrado e no MIT lá fora; exceto correr, bem rápido e contra todos, em busca do sucesso, do prestígio, da grana.

E foi assim, PhD em brands, multinacional na carteira e quase um milhão na conta antes dos dez anos de diploma, que Luzia estava chegando lá.

Só que a vida não segue scripts e Luzia, a urbana, descobriu aos 30 anos que teria de lidar com outras marcas, mais vitais: colesterol, 300; pressão, 15x9 e um AVC, provável ainda antes dos 40. E não dava para culpar a genética, não havia histórico assim do pai ou da mãe, nem dos avós.

“Eu e minha pressa”, ela pensou com os seus botões. Não restou senão enfrentar os vilões. A começar pela dieta. Sim, Luzia decretou o fim das cebolas grelhadas do Outback, adeus feijoada do Paddock. A pizza da 1900..., nem sonhar. De agora em diante, comida japonesa, brócolis e salada de frutas, sem chantili. Mas o doutor do coração e a doutora da dieta, impávidos, contra-atacaram: só isto não basta, mocinha!

Luzia então sacou um jeito de continuar correndo, só que diferente: nas ruas, nos parques, nas manhãs frias dos feriados, nas ensolaradas de domingo: primeiro, as caminhadas. As provas de 5k vieram em seguida, as de 10 logo depois.

No último dia do ano passado, colesterol 120, pressão 11x7, barriga de tanquinho, adrenalina a mil, Luzia cruzou a linha de chegada de sua primeira São Silvestre. Ela agora corre em frente, pela vida, como fazia a outra Luzia, 10 milênios antes.



Luzia foi o nome que recebeu do biólogo Walter Alves Neves o fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11,5 mil anos. Walter Neves se inspirou em Lucy, célebre fóssil de Australoputhecus afarensis de mais de 3 milhões de anos, achado em 1974 na Tanzânia, África. Luzia foi localizada no sítio arqueológico de Lagoa Santa, MG, em 1975.
Luzia, a brasileira da Paulista, pode ser qualquer um de nós.



(Eucledson Salvador)
Grande Amigo e Agitador de corridas de rua.

2 comentários:

Lasalvia disse...

Parabéns, ao amigo e mestre Eucledson pelo texto. Ele que me incentivou para a primeira corrida ha 1 ano e meio atras. Hoje, já tendo participado de 14 corridas estou cada vez mais entusiasmado, com alguns quilos a menos e principais indicadores de saúde em ordem.

abs,

tatizanon disse...

Ana, você está correndo agora?! Que grande mudança... :)

Por acaso o Eucledson fez BBS?

Bjos!