Quando eu era criança, era muito raro a gente sair pra comer fora. Em casa era uma delícia a comidinha da minha mãe, não lamento nem um pouco. Mas consigo me recordar com emoção os aniversários no MC Donalds, quando as embalagens ainda eram de isopor. Nos dias de passar pelo oftalmologista que meu irmão, dez anos mais velho, sempre dava um ticket pra minha mãe me levar pra lanchar. Aliás, por vezes só eu lanchava. E acreditava que ela simplesmente não queria mesmo. Bobagem. Meus olhos enchem d'água quando lembro. Meu irmão tirava da boca e me dava um ticket de seu talão, na época que era de papel. Lembram? Tinha contra-vale!
Os tempos mudaram...
Meu pai não tinha grana pra levar a família toda assim, três filhos pra um restaurante bacanudo. Mas ele, Sr. Tiãzinho, e quem o conhece sabe do que eu estou falando, era tão bacanudo, tão querido, que tinha amigos que eram donos de grandes restaurantes. Vez ou outra meu pai deixava o orgulho de lado e aceitava o convite deles. Eu me lembro de três vezes que fomos todos, pegando dois ônibus pra chegar, a família toda, almoçar nestes restaurantes chiquetosos. Eu tinha entre seis e oito anos. Eram lindos! Lembro de um deles que, no dia que fomos, estava a cúpula do PT, com a Erundina e tudo, na época que ainda era time de esquerda, no mesmo ano que ela foi eleita. Meu irmão, meninote na época, devia ser uma das primeiras vezes que iria votar, super petista, tomou coragem e foi cumprimentá-la, dando-lhe as mãos e dizendo que votaria nela. E voltamos radiantes pra casa por termos visto alguém tão importante. E com o pandu cheio de comida de bacana. É. Os tempos mudaram...
Em todas as vezes, eu comia bife a parmegiana. Talvez pela simplicidade dos meus pais em não querer ousar em outras coisas do cardápio. Isso eu não sei. Só sei que eu DUVIDO que alguém sinta tanta nostalgia quando come um bife a parmegiana como EU sinto. Até hoje, por mais que custe vinte conto por aí, quando como, vem isso tudo à minha mente: minha família unida, meu pai amado pelo faxineiro e pelo dono de comércio, minha mãe deixando a gente bonito pro passeio, meus irmãos de mãos dadas comigo. E cada garfada do prato, é pra mim um BANQUETE de boas lembranças...
Acho que por isso que a gente tem medo de morrer. Medo de esquecer tanta coisa boa que já vivemos.
Ai, ai.
"... A riqueza que nós temos, ninguém consegue perceber..."
(Legião Urbana)

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