domingo, 28 de abril de 2013

A gente sai pra doar, e só recebe...

Ontem fiquei encantada. Por conhecer gente encantadora.
Não sei se conseguirei expressar por aqui tudo que sinto e penso. É como de fosse um turbilhão de emoções e conclusões!
Sou voluntária da Make a Wish. Uma ONG cuja missão é realizar sonhos de crianças com doenças que colocam sua vida em risco, enriquecendo a experiência humana com esperança, força e alegria. E ontem foi a primeira vez que participei de uma das fases do Processo que tem como objetivo conhecer a criança que inscreveu seu sonho e decobrir ou confirmar qual é seu real desejo.
Ontem fomos conhecer o Vitor. Um guerreiro de 15 anos que aos 5 iniciou uma luta contra um câncer no cérebro. E hoje, aos 15, sonha em ter cabelo.
Sonha obstinadamente. Um sonho inegociável. Ele chegou a perder o cabelo todinho em épocas de quimio e radioterapia. Hoje, livre da doença, tem um cabelo lindo, exceto numa região que sofreu maior ataque de radiação e o cabelo cresce ralinho, igual de bebê. Por isso não larga o boné. Sente falta da costeleta do lado direito. Quando cheguei na casa dele e começamos a conversar, como eu estava sentada do lado esquerdo, nem parecia que ele precisava mesmo de um implante. Tudo perfeito olhando daquele lado. Depois ele me mostrou o que o incomodava. Fiquei lembrando dos meus 15 anos quando muita coisa me incomodava. Fase de grandes descobertas do corpo, das primeiras paixões, quem não quer estar bonito? Até tentamos convencê-lo que ser careca é legal. O Fabrício estava com a gente, sem nenhum fio de cabelo na cabeça toda. Mas por opção. Aí fica mais fácil, né... Ele não esmoreceu. Nada de perucas nem entrelaçamento. Ele quer implante. "Pra poder puxar."
Eu falei pra ele: "Você sabe que quando você aparecer todo bonitão de cabelo na sua escola eles vão arranjar outra coisa pra te encher o saco, né? A mulecada é terrível! Aliás, aposto que você também já tirou sarro de alguém na escola, não?!" E ele riu. E me deixou feliz quando discordou da vó que disse que ele queria cabelo por causa do bullying da escola. Ele disse: "Não. Eu quero porque eu quero. Ninguém pergunta nada na escola... Lá todo mundo pode usar boné."
O Vitor mora com os avós desde os 5. Na época, a mãe tinha mais dois além dele, e estava grávida. Quando se viram na situação de que teria que ir ao hospital todos os dias, decidiram que ela cuidaria dos 3 (que depois viraram 4. O Vitor tem hoje 4 irmãos) e que os avós cuidariam do Vitor. Por isso ele chama a vó Tiana de mãe.
A vó lembra que ele estava no prézinho. E só frequentou a escola por 6 dias neste ano. Pra iniciar todo tratamento e cirurgias. Hoje o Vitor já está no primeiro colegial. Mostrou pra gente o seu caderno de Filosofia, todo caprichoso, que falava de Descartes. Nitidamente alguém que nunca se colocou no papel de vítima de sua situação. Aos 15, um vencedor. Enquanto conheço uns quarentões que ainda não dão sentido em suas próprias vidas, coadjuvantes em suas estórias...
Uma lição.
A família toda unida! Quando chegamos estavam todos na casa da vó Tiana e do vô Valter. Um casal tão "vô" que nem eu resisti. Depois de uma horinha já os chamava de vó e vô também.
A receptividade foi sem igual. Café da tarde, suco, leite, vários tipos de biscoitinhos... Tão casa de vó!... Os 9 netos por de volta da mesa, que a vó pedia cuidado porque era frágil. E ela explicando que comprou aquela mais simples porque também queria armários. E que se comprasse uma mesa melhor não daria pra comprar os dois. E ela se auto entitulava : " a vó é organizadinha." E de fato era. A casa uma belezura. Estante reformada por ela e seu marido. A casa toda pintada. Por ela mesma. Que mesmo trabalhando numa casa de família, cuidando da dela, ainda arranja tempo pra pintar a casa, fazer necessaires usando pote de sorvete e puxador de armário velho, além de lindas paisagens em tela. Ela gosta de pintar paisagens! Uma mais linda que a outra. O vô ajuda. Em tudo, segundo ela. Uma parceria destas que deu mais que certo. Que exala união, fortaleza e companheirismo. Dá pra ver em uma única visita.
O Vitor tem uma irmã gêmea. Que quebrou a perna algumas vezes (algumas de verdade e outras de mentira) porque queria ir pro hospital com o irmão. Na época dos tratamentos. Eu sempre falo que esse negócio de sangue é forte...
O tio convenceu o Vitor a cortar o cabelo curto, porque ele deixou crescer de um lado pra jogar do outro. E o tio ensinou ele a assumir sua condição. Teve que ir embora descansar em meio à nossa visita pois é motorista de ônibus e trabalha de madrugada. Tem 4 filhos. O último de 3 meses e 9 kilos. Benza a Deus. Lindo demais! As primas o acordam para poderem o pegar no colo, tamanha fofura. A irmãzinha tem problema auditivo e usa aparelho, e lê lábios como ninguém. O menorzinho, com uns 3, chorou porque queria um pacote de bolacha fechado, só pra ele. E a vó já tinha aberto todos pra pôr na mesa. Fiquei lembrando quando eu era menina e ia pra praia com um monte de criança da família dos amigos Rosa e Willian e a hora mais feliz era a fila pra ganhar uma Trakinas de sobremesa. Deu saudade.
Depois a vó foi me mostrar todas as fotos do Vitor. Desde pequenininho. Tão lindo... Da quimio só uma outra, e ela sussurra no meu ouvido: " tem certas coisas que é melhor não lembrar"... Sábia. Tão sábia que fez um caderno, uma espécie de Diário de Bordo, com todas as informações dos tratamentos do Vitor. Onde ela escreveu cada exame, cada tratamento, cada código, cada remédio que ele tomou. Tudo com data. E ela explica: "Amanhã ou depois eu posso não estar mais aqui e ele precisar saber de tudo que aconteceu. E ele não vai se lembrar, porque era uma criança. Por isto que eu fiz."
Sábia.
Com seu carrinho simples aprendeu a chegar a qualquer hospital de São Paulo. Disse que nunca tinha saído de Carapicuíba até então, mas que aprendeu a dirigir pra todo canto porque o Vitor sofria indo de condução até as Clínicas. Realmente, a necessidade faz o homem. Ou numa versão menos poética, quando a água bate, todo mundo aprende a nadar.
Uma heroína.
A única vez que disse que se perdeu foi num lugar estranho que só tinha um canteiro e carro "vum... Vum... Pra lá e pra cá". Imagino que seja a Marginal. Era madrugada. Mas ela disse que nem precisou rezar, Nossa Senhora mandou um anjo: um rapaz parou e perguntou o que tinha acontecido e ela disse que precisava levar o neto com febre no hospital. E o rapaz, "novo como vocês", explicava ela, pediu pra ela segui-lo e a deixou na frente do Graac. E a vó termina: "não é muito comum aparecer anjo aqui, mas naquele dia que eu precisei, apareceu."
Nessa hora me lembrou minha mãe contando quando ela chegou com 3 filhos do Paraná, numa megalópole como São Paulo, tendo que aprender tudo sozinha: andar de ônibus e metrô, se esquivar das malandragens, pra lá e pra cá procurando casa e escola, levando a gente doente no hospital, enfim. Quando minha mãe conta estas coisas também fala de anjos. E não se dão conta que anjos são elas!...
Depois tive uma aula sobre horta. Sobre plantas. Ganhei um vasinho lindo com bolinhas laranjas que a gente não sabe ae é de comer ou de passar no cabelo. Ganhei pimenta de bode que o vô disse ser ruim, mas as vizinhas gostam. Ganhei também uma capa pro meu iPhone. Fiquei super constrangida. Disse que não queria mas as meninas disseram que seria uma disfeita. Então aceitei. E pus na hora no meu telefone. Não é o tipo da capinha que eur compraria jamais. Mas agora é. Agora é a capinha que eu vou usar todos os dias. Porque tem significado pra mim. Não olharei pra ela sem lembrar do Vitor, de toda sua luta e de toda sua linda família. Quanto amor. Quanta dedicação. Tempos difíceis que a Dona Tiana deixou de trabalhar como costureira para poder acompanhar o Vitor em seus tratamentos. Época que ela descreve que o Sr. Valter ganhava 50 Reais por dia e ela gastava os 50. Mas fase que eles superaram. Hoje o Vitor não toma mais nem um remédio. É um menino doce. Acho que sua experiência o fez um pouco mais maduro que a maioria dos meninos de sua idade (bendita geração y e sucessoras). Agradece a Deus sempre. Mostrou uma música que fizeram pra ele com o nome de todos da família. Me cortou o coração que não estava o nome do vô. Mas foi sem querer que esqueceu. Vô falou rindo: "esqueceu de mim". Me lembrou meu pai. O mesmo jeitão do Seu Tiãozinho.
Passei alguma horas bem acolhida na casa de uma família linda, que eu nem imaginava que existia dias atrás. E lá meio que senti que sentimentos do bem estão por toda parte: amor, união, esperança, perseverança, garra, solidariedade, carinho, dedicação, lealdade, etc etc etc...
Fiquei pensando que às vezes eu acho que preciso ir pra looooonge pra conhecer diferentes histórias, quando na verdade pessoas especiais estão por toda a parte.
Não ouvi por nenhuma vez ninguém reclamar de nada naquela casa. E só por isto já valeu pra minha vida tê-los conhecido.
Estive pensando... Sabe do que eu mais gosto nesta vida?
De ser GENTE.
:,)


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