sexta-feira, 16 de maio de 2014

O dia que pensei melhor e vi que estava errada

Ontem fiz um post reclamando da manifestação dos sem-teto que deu uma travada básica no trânsito de São Paulo.
Na verdade fiz aquela crítica clichê de um monte de gente que acha que já foi pobre mas que na verdade não tem a menor idéia do que é pobreza de verdade. Aquele discurso  "trabalhar que é bom ninguém quer."
Mas pensei bem e hoje estou com vergonha de ter pensado assim.
Estava chateada por estar parada há horas dentro do meu carro quase zero com ar condicionado e nervosa por não poder chegar ao meu emprego. Tem noção do quão egoísta é isso?
Esta ficha me caiu pois todos os dias eu passo e vejo uma cena como a da foto abaixo:


Sabem o que é isso?
Uma mulher sem teto. Que mora debaixo da ponte do Morumbi. O mesmo Morumbi da ostentação.
Só que hoje eu passei por isto, com minhas portas travadas, meu vidro fechado e meu ar ligado, e me senti uma merda. Porque eu sempre rezo pra que Deus dê condições mais dignas pra pessoas como ela. Mas quando eles se unem para uma manifestação e "mexem no meu queijo", me tiram quarenta minutos da minha rotina perfeita, eu fico brava. E os julgo. Pra que rezar?
Qual a probabilidade de uma pessoa nestas condições conseguir dar a volta por cima sem a ajuda do Governo? Se esta mulher que mora bem aí, embaixo desta ponte, batesse na porta da sua casa e dissesse: "Quero trabalhar. Quero lavar seu banheiro. Pode me pagar no mês o que você paga num tênis pro seu filho", você abriria a porta da sua casa e daria a ela uma chance? Certamente não. 
Aí vão me dizer: "Ah, mas os caras que vão na manifestação são de outro tipo. Eles ganham a casa e vendem." Eu não cometerei de novo este tipo de erro. Eu precisaria conhecer a fundo a vidas daquelas mil pessoas para poder chegar a uma conclusão precipitada destas.
Sei que existem pessoas acomodadas, que não buscam mudar de vida, ao contrário de verdadeiros campeões que deram A VOLTA por cima. Mas sinceramente eu me pergunto: "se eu estivesse na situação deles, se eu tivesse  as mesmas condições, as mesmas experiências que eles, talvez fosse pior. Uma criminosa provavelmente." Porque o meio é responsável também pelo que se tornam as pessoas. E talvez se eles tivessem nascido na família que eu nasci, se tivessem frequentado as escolas que estudei, se tivessem tido as minhas oportunidades, fossem ganhadores de Prêmios Nobel. E eu sou uma bosta. Este é o ponto.
Eu não nasci sem teto. Sou filha e irmã de trabalhadores que nunca me deixaram faltar as condições básicas para um ser humano ser feliz: saúde, educação (ainda que em escolas públicas), moradia (ainda que em casa de aluguel), alimentação (ainda que só tivesse danone no dia da compra), segurança e sobretudo amor. Muito amor. 
Estas pessoas são, certamente, muito mais que sem-teto.
São pessoas tentando gritar para serem notadas. Mas é como se estivessem em "mute" em meio às classes em ascensão.
E quem sou eu pra julgar? 
Que o Governo possa usar de forma decente todo o imposto que eu pago para tentar melhorar esta desigualdade do nosso País. Nunca soneguei. Nem um centavo. Nunca fiz esquema nenhum pra restituir mais. Enquanto me acham uma otária, eu me sinto de consciência tranquila. Se o Governo corrompe meu dinheiro, o carma é deles, um erro não justifica o outro. 
Que eu seja capaz de votar em pessoas mais humanas que mudem de opinião. E que não achem justa tamanha diferença. Que minimamente enxerguem cenas absurdas como esta de pessoas morando embaixo da ponte. Enxergar já é um começo. Refletir vem depois. Tem gente que não tem e nem nunca terá a menor idéia do que eu estou falando.
Me arrependi.
Sem teto: parem SP!
Exijam a ajuda que o Governo tem a obrigação de dar para que recuperem sua dignidade e busquem como eu, desde que em condições semelhantes. Capitalismo sim. Selvagem, não.
"Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..."
Que eu nunca fique cega. Amém.