segunda-feira, 21 de julho de 2014

Beco sem Saída

Ontem estava na casa de meus pais e assisti ao Fantástico. Não é o que gosto de assistir num domingo a noite pois, domingos a noite já são suficientemente depressivos para que tenhamos que ter ainda uma dose extra de realidade. Acho que o SBT deveria passar Maratona de Chaves aos domingos a noite, seguido de Pantera Cor-de-Rosa mas enfim. Fiquei chocada com a reportagem que mostra os policiais que pegaram 2 trombadinhas na rua e os executaram no meio do mato, sendo que, um deles sobreviveu e então tem a estória pra contar. Fiquei pensando que estamos, nós, seres humanos, num beco sem saída. A segurança pública se tornou um beco sem saída...
De um lado, é atemorizante ver as gravações dos dois policiais simplesmente em êxtase por matar dois seres humanos, um de 12 anos e o outro não me lembro. Eles não estavam com uma cara do tipo "puta, que merda, matei um moleque", mas agindo com naturalidade demais a ponto de nos chocar. Chocou porque vimos ali a pior versão de nós mesmos, o lado mais negro do ser humano, que banaliza a morte e brinca de ser deus inescrupulosamente. Como disse meu marido, "rola um prazer em matar. Tipo Hannibal." Pra quem nunca assistiu a "quadrilogia" de filmes do Hannibal (Hannibal, Hannibal - A origem do Mal, Dragão Vermelho e Silêncio dos Inocentes), está perdendo. Minha trama preferida. E ainda tem o seriado. Tem uma coisa que é muito marcante naquele monstro que come pessoas: ele teve seu porquê para virar monstro. Em tempos de Guerra, comeram sua irmãzinha mais nova, sendo que ela era tudo que ele tinha na vida, após já ter perdido seus pais. E é isso que faz refletir na trama: provavelmente sob aquelas condições, eu e você também seríamos monstros, canibais ou o que quer que seja. E assim é a vida. A gente não consegue julgar nenhum lado sem sermos muito injustos: o moleque que talvez nunca tenha tido dignidade na vida, talvez nunca teve condições de ser um cidadão, talvez nunca tenha tido exemplo e nem amor, e que se tornou ladrão, e que amanhã vai ser um potencial assassino porque hoje ele só não assalta porque ainda não lhe deram um três oitão... O policial que ganha uma miséria todos os meses para colocar sua vida em risco todos os dias e vive submerso no mundo do crime, essas coisas que a gente fica horrorizado de ver no noticiário da noite, enquanto tomamos uma canja bem quentinha com a bunda sentada em nossos sofás, sabe? Então, é o dia-a-dia dos caras. Mas ao vivo e a cores. Os policiais vêem bandidos o tempo todo. Eles ingerem ódio, medo e vivem numa selva com leis de sobrevivência que desconhecemos. Você já foi roubado por um trombadinha? Ou um trombadinha já roubou sua mãe, sua avó ou alguém grávida que conhece? Certamente deve ter vindo uma frase clichê em sua cabeça: "essa raça tem mais é que morrer tudo!" Ainda que não tenha tido coragem de falar. Só que aí, quando passa no Fantástico o policial que matou os moleques menores de idade, a gente fica chocado.
Fez me lembrar de duas coisas: uma delas quando fui roubada por um trombadinha de bicicleta na Avenida Paulista. Eu, parada no farol falando no telefone, tinha acabado de sair de uma entrevista (estava desempregada), esperando o semáforo abrir pra eu atravessar, parou um moleque com seus 16 anos, mais ou menos, de bicicleta na minha frente, com um estilete de merda (me zoam até hoje que fui roubada com uma faca de rocambole) e pegou meu celular. Eu me ferrei: perdi meus contatos, na época nem tinha portabilidade numérica e então perdi meu número, tudo isso em meio a inúmeros processos seletivos que estava participando, desempregada. Chorei, chorei. E aquele moleque trouxe a tona o pior de mim. Lembre-se: todo mundo tem seu lado Hannibal, são as circunstâncias a que é submetido que aflorarão ou não o monstro que existe em você. Naquele momento, fiquei com ódio do moleque. Nem lembrei da teoria do coitado que não teve chance na vida. Eu queria meu telefone pra procurar a porra do meu emprego. Chorei de ódio. Sensação de impotência. O valor do smartphone nem era a grande questão, sabe? Embora fosse mais de Mil Reais. Mas todo o contexto do "e se me ligarem amanhã da vaga tal" me deixou verdadeiramente enfurecida. Atravessei a rua e duas travessas pra frente entrei no meu carro popular não zero, ainda que eu tenha começado a trabalhar aos 13, tudo vai dando mais revolta. Dou partida no carro, chorando, e quem passa na minha frente? O mesmo moleque, com a bicicleta. Não tive dúvidas: liguei meu carro e acelerei atrás dele: era pra atropelar! Eu certamente não queria matá-lo, mas quebrá-lo eu queria. Juro. E eu sou canceriana, caçula e cristã. Pra minha sorte ele virou numa contra-mão bastante movimentada e o perdi de vista. Bastaram 5 minutos para eu me perguntar o que eu estava fazendo... Eu poderia ter estragado a minha vida machucando alguém. Às vezes é 1 minuto de Hannibal que acaba com uma vida inteira de Ursinhos Carinhosos que vivemos. Pra minha sorte, não foi dessa vez. Mas me lembrei de tudo isso ontem antes de julgar impetuosamente os policiais. Todo mundo quer que mata, mas ninguém quer ver matando.... Este é o ponto.
Lembrei de uma segunda vez, descendo a Ladeira de Porto Geral, na região da 25 de Março, e um homem bem vestido bateu a bolsa de uma senhorinha. Mas foi pego pelos próprios camelôs da rua que gritavam "aqui, não, fdp! Aqui você não vai roubar não", preocupados com suas vendas e não com a velhinha, obviamente. Colocaram esse ladrão num poste e bateram muito nele, até a polícia chegar para supostamente salvá-lo. Eu assisti a cena aos prantos de dentro de uma loja, onde me enfiei pra fugir do tumulto. Ninguém quer saber porque o cara roubou a velhinha. É justo roubar a velhinha? Claro que não! E bater no ladrão? Ninguém sabe se ele era um vagabundo que ganha a vida roubando ao invés de acordar cedo e pegar uma enxada ou se ele era um desesperado desistindo de lutar nessa terra de ninguém com filho pequeno com fome em casa. Você acha que os policiais fizeram algo melhor pra ele que a surra que ele tomou dos ambulantes? Não gosto nem de pensar.... Mas enfim, a mesma Ana que quis atropelar o trombadinha da bicicleta estava ali, chorando, pedindo pelo amor de Deus para pararem de bater no trombadinha da 25. Talvez me pegou num dia melhor: eu não estava desempregada e a velhinha não era minha mãe. Mas o fato é, os Direitos Humanos, que tanto criticamos e achamos que só atrapalha tudo, luta pelo direito que por vezes nem sabemos que queremos ter: o direito de não presenciar, de não aceitar, de não existir esse tipo de coisa, tão desumana que é virar bicho e tratar o próximo como animal.
Aqueles policiais eram bichos, era nítido nas filmagens. Ninguém mata com tanto prazer..,
Os moleques, idem. Se não não estariam no mundo do crime. 
E assim segue nossa vida, onde morre mais gente por aqui nessa guerra de animais do que nas guerras santas entre palestinos e judeus que tanto nos assustam. 
Estamos num beco sem saída.
A gente não sabe nem pra quem torcer porque não sabemos mais quem é o mocinho e quem é o vilão...


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