domingo, 24 de agosto de 2008

A FESTA DE ABIGAIU


Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Já dizia Fernando Pessoa. A peça A FESTA DE ABIGAIU é um exemplo destes. Uma comédia não tão pop como “Cada um com seus pobrema” (esta é de matar o peão de rir), a peça relata a vida das pessoas nos anos 70. Baseada num texto inglês, dá o entender de que não somos nada diferentes nas diferentes partes do mundo, seja Londres ou São Paulo, e pior: não mudamos com o passar dos anos. O cenário é uma sala de estar onde se encontram 5 pessoas numa festinha com o intuito de bebericarem e se divertirem. Cada personagem tem sua característica marcante. São dois casais e uma divorciada, que é a mãe de uma adolescente que está dando uma festa na rua, a tal festa de Abigaiu. Mas a peça se passa fora desta festa, apenas mostrando o quão sem graça é quando adultos típicos se encontram com o intuito de festejar e acabam mais se chateando do que qualquer outra coisa. Um casal é composto por uma submissa boazinha, que fica deslumbrada com tudo e todos casada com um cara super grosso, cafajeste e mal humorado (que medo!). O outro casal, por uma mulher extravagante e egoísta que não exita em enfartar o marido de tanto lhe fazer passar desgostoe fazer dele seu escravo, o que somatiza com o fato de que a vida dele é trabalho para poder bancar todas as exibições de riquezas que os dois não se cansam de mostrar aos convidados. Já a divorciada é uma mãe dominada pela filha adolescente que não pode interromper a festa e por isso está lá no tal encontro na sala de estar. Nimguém diz nada engraçado, dançar não passa de uma boa desculpa de troca de casais e a grande pauta dos assuntos mostra a competição infindável do mundo capitalista: quem tem a casa maior, a mais bonita, a mais nova. Quem já fez as melhores viagens. Quem tem o emprego mais promissor. Enfim, todos os blablablás que tornam a vida de muitos adultos uma grande chatice.
E isso me fez refletir no quanto tendemos a regredir com nosso potencial de sermos felizes desde quando deixamos de ser crianças. Como era fácil chegar no parquinho, ver crianças brincando entre elas e simplesmente dizer: “Posso brincar?” . Automaticamente elas balançavam a cabeça num gesto de afirmação e pronto, realmente éramos felizes, realmente nos divertíamos. Sem precisar ingerir nenhum gole de álcool, sem precisar ter o brinquedo mais bonito, sem precisar ter uma roupinha da Lilica Dipilica pra ser a criança mais admirada.
A grande sacada é aproveitar as maravilhas de ser adulto (não ter que dar satisfação, poder ir e vir, poder comprar, poder ousar muito mais, poder aprender infinitamente, poder da escolha, autonomia para errar e acertar, enfim... ) e saber conservar o “quê” de criança de rir de coisas simples, admirar a natureza, simplificar a vida que tende a ser tão complicada. E quando estivermos na balada, ou no emprego, ou sabe-se lá aonde, simplesmente deixar que as pessoas se aproximem, que as conheçamos, que dividamos, sem pensar no que se ganha ou no que se perde, sem pensarmos nos rótulos ou preconceitos, mas simplesmente deixando-as vir à tona o bom e velho dom que temos de ser felizes por nós mesmos, sem regras nem leis.
Com certeza, A FESTA DA ABIGAIU (personagem que nem aparece na peça) estava bem mais bacana que aquela reunião social chatérrima que ilustra a vida da grande maioria dos adultos.
E no cenário da vida, mesmo sendo uma quase Balzaquiana, eu não quero estar “nas salas”. Prefiro o mistério das tais festas das Abigais...



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