Ponto alto do meu dia foi lembrar de alguns momentos com meu pai, lá da infância.
Começou com a minha amiga Sílvia se perguntando se filha menina se apega mais ao pai. Contei que fiquei emocionada com o post de um amigo, que se chama Fábio e que é super rígido no dia a dia com a gente, mas postou um vídeo ensinando sua filha a andar de bicicleta. Todo doce! Cada vez que a pequena Ana caía, ele estava ao lado, para suportá-la e não deixá-la desistir. Enfim, uma menininha arranca a maior ternura e doçura do homem que é seu pai, por mais duro que ele possa ser longe dela.
Imagine eu que sou filha do Seu Tiãozinho, que é doce melado por natureza com todo mundo.
Nem sei quantas vezes ele se atirou na frente das cintadas da minha mãe (porque alguém tem que fazer o trabalho sujo... Rs) para me salvar dos "açúquinhas", como ele carinhosamente chamava as surras que eu tomava. Me livrava de várias!
Lembro também que ele era meio Jackass, manja? Uma vez me empurrou tão alto do balanço no sítio do meu tio, tão alto, que eu achei que ali mesmo eu aprenderia o que era força centrípeda e viraria num loop sem cair do assento do balanço. Chorei de medo e minha mãe apareçeu pra me salvar. Mandou ele voltar a deitar e para o jogo de futebol que ele ouvia no radinho de pilha dele. Ele rindo (parecendo o Chaves) voltava pro canto dele. Hoje entendo que era estratégia. Nunca voltei a incomodá-lo pedindo "Me balança, paaaai!". Nunca mais!
Lembro também da primeira vez que ganhei minha bicicleta. Um sonho! Tinha um supermercado que abria aos domingos seus portões do estacionamento (naquela época o supermercado não abria aos domingos, pode imaginar isto nos dias de hoje? Em se tratando de São Paulo Capital?) e o estacionamento era usado pela comunidade local pra andarmos de patins, bicicleta, empinar pipa. Enorme! Sonda Supermercados na Zona Norte, onde cresci. Então meu pai levou a caixa da bicicleta lá e montou, enquanto eu olhava aquele sonho cor-de-rosa tomando forma de realidade. Tinha uma rampinha. Ele montou lá em cima e me chamou assim que terminou. Ainda insegura, conferi se tinha rodinhas e fui. Mas quando desci a rampinna, minha bicicleta desmontou toda!!! Há! Yeyé! Já dizia o poeta. Era pegadinha do Malandro: meu pai não pôs parafuso na bicicleta. Ele ria tanto! E eu indignada, brigando quase como brigo hoje, mas com meus 4 anos de idade, então tinha graça e ele ria. Talvez por isso nunca tive coragem de me jogar reta pra trás esperando que ele me segurasse, tipo brincando de desmaio, sabe? Sei lá como meu pai via graça nisso. Hoje eu acho graça. E fico mais confortável em ter filhos por ver que vovô inofensivo que ele se tornou. Rs. Mas a NASA deveria estudar meu pai.
Ele conta rindo que uma vez ele levou meu irmão de 6 anos no carrinho bate-bate do parquinho do bairro e pôs minha irmã com 3 sentadinha do lado dele. Na primeira batida minha irmã Claudia bateu o narizinho e saiu um pouco de sangue. Meu irmão Altemir, protetor que é, aprendeu a dirigir, fazer baliza, tudo ali, aos 6 anos, naquele carrinho. Meu pai conta o desespero do meu irmão escapando das outras batidas pra salvar a minha irmã! "Não deixou bater mais nenhuma vez!" E lá foi a vizinha chamar minha mãe pro parque caguetar que meu pai estava fazendo merda com as crianças. É ou não é um tiquinho Jackass? Hahaha!
Mas as lembranças são doces. Doces como o caldo de cana que ele me levava religiosamente para tomar todos os domingos na feira, com pastel de carne. Enjoei que não tomo um e nem como o outro hoje. Mas às vezes dá vontade de comer e beber só pra sentir aquele gostinho de passado.
Passado que eu ao ouvir ele chegando do trabalho, me escondia embaixo do móvel da sala, um balcão, e esperava ele entrar e perguntar pra minha mãe: "Cadê a Paulinha?" E minha mãe todos os dias dizia: " Foi no zoológico!" E ele dizia: "Foi? Não acredito!..." E então eu pulava na frente dele dando um susto com direito a grito e risada. Ele me abraçava e me beijava. E assim foi por um longo tempo. Um dia eu tinha 10, ele chegou e falou: "Cadê a Paulinha?" Eu já nem cabia mais embaixo do móvel pra me esconder. Estava na sala ao lado da cozinha. E ouvi minha mãe dizer: "Hoje a Paulinha ficou mocinha!" Quis morrer. Juro que me enfiaria embaixo do balcão se ainda coubesse! Mãe é fogo! Tem mesmo que contar essas coisas???! E meu pai piorou; "Como assim?" Hahaha! Meu pai nunca foi de saber falar dessas coisas de corpo e sexo. Nem com meu irmão que era menino, quiçá comigo! Dizem que certa vez Seu Tiãozinho foi à farmácia comprar absorvente pra minha mãe e ao perguntar pra que era meu pai falou pro meu irmão que era pra pôr no nariz. Imagina isso?
Esse é meu pai! Que em todo domingo, até nos mais frios e de chuva, sentava na cadeira pra brincar de escolinha comigo, e ficava rindo achando graça quando eu passava a lição na lousa e brigava que ele não estava copiando direito! Eu adorava uns patinhos que ele desenhava pra mim! E adorava colocar ele de castigo! E hoje em dia, vejo o mesmo movimento por parte de minhas sobrinhas de 4 e 6 anos: elas adoram dar bronca no meu pai e colocá-lo de castigo. Concluo que é quase natural e instituvo judiar dos mais bonzinhos. Ou então a gente gosta de fazer isso porque meu pai fica meio que rindo de fundo. A gente sabe que está fazendo ele feliz.
Meu pai gritava da janela em frente ao ponto de ônibus pra minha irmã que era super tímida: "Fiaaaa, esqueceu a marmita!!!" Enquanto ela fingia que não era com ela. Só pra rir. E até hoje eu chamo as pessoas que mais gosto de "fia" e "fio" como um gesto do meu mais profundo carinho!
Meu pai roubava meu ovinho de codorna que eu deixava pro final porque gostava mais. Pra me irritar. E sempre que eu aparecia com amigos da escola em casa, ele inusitadamente aparecia com um cacho inteiro de bananas oferencendo uma pra cada um, inclusive pro meu amiguinho por quem eu era apaixonada, mas que na minha cabeça não me daria bola nunca com um sogro macaco desses.
E assim acho que aprendi importantes liçōes: não acreditar nunca completamente nas pessoas. Se seu pai pode te zoar, imagina um estranho, imagina na Copa!
Nunca deixe nada muito bom pro final. Nada de adiar o que mais quer.
E que bonzinho só se fode.
Fora todas as lições de amor, honestidade e responsabilidade que aprendi só olhando. Meu pai sempre foi um cara de muitos exemplos e poucas palavras.
Claro que tivemos nossos rompantes. Meu pai já foi herói e já foi bandido na nossa vida, sobretudo por conta de bebida num passado mais distante. Mas prefiro me ater ao que de bom existiu. Estas lembranças são, sem dúvida, mais fortes. Contra os carmas que ele criou, devo ter me igualado pelo tanto que o fiz lutar, sofrer e fora que não casei nada virgem. Hehehe. Então estamos quites. Passando a régua só sobra o amor e estas boas lembranças... Estas melhores!

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